26 de out de 2008

Bem mais poloneses do que alemães: a primeira leva de imigrantes em Santa Cruz



Dias atrás, revendo um artigo sobre a história santa-cruzense, que está disponível no site da Prefeitura Municipal de Santa Cruz do Sul, me voltou a chamar a atenção aquilo que o estudioso das questões da etnicidade, Cláudio Ferreira, vem argumentando, ou seja, que, a rigor, os primeiros imigrantes em nossa Santa Cruz do Sul simplesmente NÃO ERAM de nacionalidade alemã, já que, como país, a Alemanha não existia até 1871. Sequer se pode alegar que, “sim, eram alemães os primevos, porque houve, posteriormente, uma unificação de territórios, dando-lhes um pertencimento nacional único”.

Vejamos o caso dos colonos da primeira leva, de 1849, "os pioneiros" – homenageados com o nome em bronze no “Monumento ao Imigrante Alemão”, ali no entroncamento das ruas Marechal Floriano e Galvão Costa. Tirando um da Prússia, hoje Alemanha, os demais assentados seriam da Silésia [reprodução ao lado de mapa antigo - divulgação], hoje Polônia. Portanto, considerando os países em sua conformação atual, seriam apenas 1 alemão e 11 poloneses...

É dito literalmente no texto que mencionei: “[Os] primeiros 12 imigrantes foram os seguintes: Augusto Wuttke (42 anos), católico, moleiro, sua mulher Francisca (33) e os filhos Guilherme (14), Joana Maria (13), Lucas (6) e Juliana (4); Frederico Tietze (28), evangélico, moleiro, e sua irmã Carlota (30); Augusto Raffler (26), católico, lavrador; Gottlieb Pohl (29), evangélico, lavrador; Augusto Arnold (43), evangélico, lavrador; e Augusto Mandler (30), evangélico, lavrador. Com exceção deste último, que era prussiano, todos os demais eram naturais da Silésia, território hoje pertencente à Polônia.”

Independentemente dos territórios específicos de onde essas milhares de pessoas tenham provindo, tratam-se de regiões da Europa que sofreram ao longo do tempo diversas alterações de denominação, domínio e sistema político, vínculo pátrio e conformações étnicas ditadas por migrações, invasões, ocupações, expurgos, guerras, ciclos econômicos etc. Imagine-se a enorme e constante fusão de culturas, línguas, hábitos, religiões e outros elementos dessas gentes bem antes de serem assentados no Brasil.

A região da Silésia é exemplo disso. Com provável origem na sedentarização de antiguíssimas tribos eslavas, até povos mongóis lá estiveram em 1241, sendo que, a atual conformação político-geográfica e composição étnico-cultural da região, só começou a se estabilizar após a 2ª Guerra Mundial, ainda sofrendo alterações com a dissolução e fim do domínio da União Soviética na vizinhança, há menos de duas décadas.

Reflita-se: aqui em Santa Cruz, estes grupos já diversos e, cada qual, formados numa diversidade anterior, diversificaram-se ainda mais em casamentos e convívios interétnicos com outros imigrantes, migrantes e nativos. Considere-se – já de saída – que, desembarcados no porto do Jacuí, abrigados pela municipalidade rio-pardense e conduzidos por tropeiros locais, esses primeiros grupos de colonizadores da Europa Central chegavam a um povoado já estabelecido, o Faxinal do João Faria, núcleo original da cidade de Santa Cruz. Conforme o artigo, “Na área do Faxinal, havia então quatro moradores [com provável parentela, agregados e escravos]: Gregório Silveira, José Rodrigues de Almeida, o vendeiro Agostinho Antônio de Barros, além de descendentes do sesmeiro João Faria da Rosa”. O neto deste antigo proprietário, de onde derivava a denominação do Faxinal, “cuja residência se localizava na região alta da atual rua Marechal Floriano, [foi] quem [abrigou e] transportou [os colonos] até o local dos seus lotes, na Picada do Abel [hoje Linha Santa Cruz]”. Somem-se, ainda, os caboclos, aquilombados e índios que estavam e circulavam pela região, conforme os registros historiográficos – aliás, pouco considerados, dando lugar à reprodução de mitologias obtusas.

Quer dizer, há – desde os primeiros momentos – contatos e convivências com grupos e indivíduos lusos, negros, mestiços já fixados em Santa Cruz e pela região, formatando paulatinamente nessas comunidades uma etnicidade peculiar, que talvez a expressão “teuto-brasileira-santa-cruzense” seja a menos problemática para identificar. Infelizmente, tais características próprias, singulares são constantemente pervertidas pela “importação de tradições” de um folclorismo da Alemanha contemporânea. Isso é notável em eventos como a Oktoberfest. Ao invés de uma comemoração da teuto-brasilidade local, temos a tentativa de um cultivo de uma germanidade postiça, caricata, comercial, que, como disse o professor Flávio Koth, pouco tem a ver com os lugares de origens dos imigrantes. E ainda menos com a cultura híbrida desenvolvida entre gentes vindas de muitos lugares que se encontraram pelas picadas e povoados que constituem hoje Santa Cruz do Sul.

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