26 de out de 2008

Cinema, tabaco e ingratidão - sobre o filme O Novo Mundo, de Malick




Pela quantidade de filmes que a gente tem à disposição aqui nas salas de Santa Cruz do Sul, me considero um freqüentador pouco assíduo. Escolho alguns poucos e devo ir em média duas ou três vezes ao mês no máximo. No ano passado [2006], pela leitura de algumas resenhas – e não pelo cartaz que vi lá no shopping, que lembrava “mais um daqueles filmes da época do descobrimento da América” –, anotei na mente como “não perder”. Tratava-se de O novo mundo (EUA, 2005), do diretor Terrence Malick.

Fui então conferir e saí muito contente. Ficou só uma semana em cartaz e parece que o público foi diminuto. Por que será que isso aconteceu? Minha tese é que o filme era o que chamam “cine-arte” e propondo reflexões. E assim, em nossa “sociedade da futilidade", da frivolidade, o apelo de O novo mundo, mesmo não sendo um daqueles ininteligíveis "filme-cabeça", se perde na mediocridade dos gostos e capacidades limitada de apreciação.

A história anda lenta, com uma fotografia belíssima, feita com luminosidade natural do próprio ambiente. É uma adaptação do clássico conto Pocahontas [na foto - divulgação -, a atriz Q'Orianka Kilcher, que interpetra a lendária índia norte-americana] – mas muito mais denso do que a açucarada versão Disney. Os realizadores pesquisaram bastante. Até a linguagem dos índios – da fala, dos movimentos corporais, adereços, pinturas, etc. Os atores tiveram que apreender um idioma em extinção, o algonquin. O forte onde os primeiros ingleses fizeram sua base, no hoje estado de Virgínia, Estados Unidos, foi construído para as gravações com os meios mais rústicos possíveis, buscando reproduzir com o máximo de fidedignidade uma construção do século XVII.

Mas quero destacar algo – quase um detalhe – que achei dos mais interessantes do filme: o tabaco, plantado, curado e usado pelos índios nesse filme. Os ingleses aprendem tudo sobre o fumo com os povos que encontraram – até técnicas de cura (no sistema “galpão”) e de fertilização: ao lado do pé, enterra-se um peixe, que, pela decomposição, vai dosando elementos orgânicos e minerais no solo, fortalecendo a planta. Aliás, a ocupação e expansão da dominação européia se deram através do tabaco (Virgínia é um tipo de fumo conhecidíssimo aqui na região).
Ou seja, o repasse da tecnologia agrícola e de beneficiamento do fumo por parte dos índios implicou num golpe traiçoeiro dos “brancos”, que expropriaram as terras e, por pouco, não destruíram totalmente as sociedades e culturas autóctones da América pré-colombiana (com vários grupos isso, infelizmente, aconteceu).Como somos ingratos! Como somos ignorantes e como somos preconceituosos em relação aos povos indígenas! Nós aqui mesmo em Santa Cruz!

Tendo o desenvolvimento da região, desde os primórdios, baseado no cultivo e beneficiamento do tabaco – planta ameríndia por excelência –, não implicou valorização alguma dos povos silvícolas aqui mesmo do Vale do Rio Pardo (os cachimbos encontrados em dezenas de sítios arqueológicos atestam o uso do fumo muito antes da introdução de colonos europeus). Ao contrário: já repetidas vezes assistimos homens públicos lamentando e conjurando que os indígenas que circulam pela cidade – vendendo seu artesanato e tentando outras formas de sobrevivência – devam ser retirados da cidade, pois “enfeiam”, “denigrem” a imagem do município.

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