26 de out de 2008

Coca-Cola: bebida com origens latino-americana e afro


Não nos damos conta de uma série de coisas. Já falei, por exemplo, que há em Santa Cruz do Sul gente que despreza os índios, dizendo que “o lugar deles não é aqui”, propondo que sejam “varridos” do centro da cidade. Mas ao mesmo tempo defende o fumo com unhas e dentes, porque tornou o município um pólo e ainda sustenta sua economia. Pois o tabaco – assim como o milho, o aipim, o amendoim, etc. – são plantas desenvolvidas e milenarmente cultivadas, beneficiadas e consumidas por indígenas, incluindo os que aqui habitaram e cujos descendentes ainda habitam quase invisíveis em alguns rincões e periferias da região, num triste sintoma do desprezo e exclusão sócial.

O próprio chimarrão, símbolo do gauchismo, vastamente consumido, é um chá típico de índios sul-americanos que viviam sem fronteiras entre Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil. Entretanto, aos goles da infusão de erva-mate, a Ilex paraguariensis, continuamos chamando-os de sujos e vagabundos...

Mas há uma outra bebida de fama ainda maior, internacional, que fez surgir uma corporação financeira poderosa e um ícone da cultural globalizada dominada pelo “Tio Sam”. A Coca-Cola, criada em 1886 pelo farmacêutico John Pemberton, é hoje um refrigerante que junta e aproveita-se de propriedades (medicinais e de sabor) de duas plantas tradicionalmente usadas por povos ancestrais, que jamais são lembrados enquanto sorvemos a beberragem. Muito menos, essa gente e seus descendentes, é lembrada na hora da empresa repartir os lucros astronômicos derivados do vasto consumo do composto.

A planta coca vem de regiões de índios da América Latina, e a Cola, de negros do nordeste da África. Regiões hoje extremamente pobres, alvo de histórica exploração político-econômica por parte de europeus e destruição de modos de vida não-capitalistas.

Coca deriva do nome quíchua “kuka”. Segundo informações da Wikipédia, “é uma planta da família Erythroxylaceae, seu nome científico é Erythroxylum Coca. Nativa da Bolívia e do Peru, tem porte arbustivo, suas flores são amarelo-alvacentas, pequenas e aromáticas, solitárias ou reunidas em cimeiras, os frutos drupáceos oblongos, vermelhos, e cujas folhas e casca encerram 14 alcalóides.” Um deles se popularizou através do mercado ilegal: a cocaína. Outros, pelo refresco Coca-Cola, originalmente vendida como remédio. “As propriedades analgésicas da coca foram descobertas pelos incas e até hoje as suas folhas são comumente mascadas na região dos Andes.”

Cola é a planta que produz o fruto conhecido como noz de cola, também chamada de abajá, café-do-sudão, cola, mukezu, obi, e oribi. Também conforme a Wikipédia, há várias espécies do gênero Cole da subfamília Sterculioideae. “Possuindo um gosto amargo e grande quantidade de cafeína, a noz é usada por muitas culturas do oeste africano, tanto individualmente quanto em grupo”. Podendo ter uso ritualístico, “tem ação estimulante, regularizadora da circulação. É também antidiarréica e usada nos casos de anemia, convalescença de doenças graves, problemas estomacais e certas enxaquecas e sobretudo nas perturbações funcionais do coração.” Essas suas propriedades conferiram alto valor à cola e à derivada bebida refrescante tradicional das regiões africanas de extremo calor, após espalhando-se pelo mundo. “O uso difundiu-se na região norte da América Latina através dos escravos negros que mascavam amêndoas de cola para suportar trabalhos penosos.” Hoje os “refris de cola” são disseminados e popularíssimos. Não há, praticamente, nenhum lugar do planeta que não ostente alguma placa do tipo “Beba Coca-Cola”...

Sem retirar o mérito do trabalho de quem “misturou” a coca e a cola, acrescentou açúcar e outras substâncias, gaseificou e começou a vender o líquido gelado engarrafado, podíamos ao menos ter em mente que tal sucesso jamais seria obtido sem ter havido trabalhos e descobertas – sobre as propriedades, variedades, formas de extração, cultivos, beneficiamentos –, hábitos e formas de uso muito anteriores, junto a povos nativos sul-americanos (coca) e africanos (cola). Ou seja, anteriores a toda riqueza dos “donos” da fórmula da Coca-Cola, há índios e negros esmagados por uma perversa concentração de poder, que, para não repartir e continuar sugando e dominando, desvia, fantasia e faz esquecer.

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