17 de out de 2008

A força gabiru na “raça” gaúcha e brasileira: Inter, Campeão do Mundo!!!



Na data histórica de 17 de dezembro de 2006, escrevi um comentário que quero compartilhar com vocês:


Estou fazendo estas anotações enquanto escuto ao fundo a histeria colorada aqui na frente de casa, na Imigrante - que é, como vocês sabem, a “Meca” desse tipo de comemoração em Santa Cruz. Mesmo que eu não quisesse, estou no meio do rebuliço, no bom sentido!

Confesso que não dou muita bola (bola!) pra futebol. Meus tempos de fanatismo foram lá pelos 10 a 14 anos, por aí, quando, de verdade, ficava deprimido com derrotas do Inter e vivia o domingo com um rádio, acompanhando nervoso toda a jornada esportiva da Guaíba, que era a minha emissora predileta – por mais uma influência do meu pai, colorado que amaldiçoava o tempo todo o seu próprio time enquanto jogava, chamando os jogadores de podres, cornos, burros, etc. Eu achava aquilo irritante e não entendia bem “qual era a dele”, mas fui compreendendo que aqueles xingamentos, aquelas maldições lançadas com fúria aos jogadores eram, na verdade, uma forma de dissipar a tensão e demonstrar, ao avesso, a sua paixão.
Enfim, mesmo que "desligado" de futebol, revivi hoje um pouco daquela alegria infantil enorme que experimentava nos anos de 1970 – e creio que a alegria em futebol tem muito de “coisa de criança”, de simulacro, de brincadeira. Foi um prazer saltar aqui na sacada do meu AP e congratular-me com os vizinhos colorados a vitória espetacular contra o "invencível" Barça. Gritei de doer a garganta, participei da passeata e fiquei lá em baixo do edifício para ver a "volta olímpica" que os torcedores santa-cruzenses do Inter deram aqui pela avenida, todos a pé, num estado de euforia, de desforra, de encantamento – estavam quase foras de si de tanta felicidade.

E mais um time gaúcho mostrou sua "raça" no Japão. E esta "raça" inclui gente como Adriano Gabiru, Iarley e Ceará, ou seja, NORDESTINOS. Isso é pra calar a boca de uma “gauchada” com laivos xenófobos, que, até, pedem a separação do Brasil. Parece-me um discurso muito do elitista, à beira do racismo. Depois de muitas peleias com “os castelhanos” ao longo de séculos de definição de fronteiras, feitas por soldados de origem lusa, por mestiços, por negros “bucha de canhão” e também mercenários de tudo quanto é canto do mundo (incluindo a Prússia), garantindo assim as terras para assentar colonos de lugares como a Alemanha e Itália, se quer um “desquite”, já que alguns se acham de uma estirpe superior e vitimizados por outros estados do Brasil – algo que não se comprova nem mesmo por indicadores econômicos reais.

Aliás, nordestinos, mais propriamente cearenses, também colonizaram Santa Cruz do Sul. Em 1900 chegava uma leva de 90 pessoas do Ceará, que depois são fixados pela região santa-cruzense, conforme registrou o professor Hardy Martin. Vai que muito santa-cruzense, que se tem por “ariano puro”, não tem logo ali atrás uma “cruza” com os mesmos antepassados dos nossos bravos Adriano Gabiru e Ceará?!

Última coisa: Sem mentira, em todas as disputas que o Grêmio teve em nível nacional e internacional, incluindo o mundial interclubes, eu torci com afinco pelo tricolor. Graças aos deuses, consegui ampliar a brincadeira que é o mundo do futebol (pelo menos para os torcedores, que se nutrem da emoção de uma filiação e disputa que rigorosamente não passam de uma abstração mental com fins lúdicos), de forma a não me tornar prisioneiro da incorporação permanente de personagens sectários.

Viva o Brasil, viva o Rio Grade do Sul, viva o mundialmente consagrado Internacional!
E assim encerrei, com ardor, o meu comentário dirigido, à época, a amigos de uma lista de contatos por intermet. Dias depois, numa crônica do Luis Fernando Verissimo, publicada no jornal Zero Hora de 21 de dezembro de 2006, fiquei muito contente em ler algo bastante similar ao meu comentário. O consagrado escritor – e colorado de quatro costados – fala que é um equívoco se pensar que “A vitória do Inter em Tóquio seria mais um triunfo do estilo gaúcho de jogar futebol. (...) Um estilo forjado pelo clima europeu, por uma história de feitos varonis etc.”. E aí ele pergunta: “Mas como se explica que a maioria dos jogadores que estavam em Tóquio não era de gaúchos?” Ou seja, o campeonato mundial, diz Verissimo, foi vencido por “falsos gaúchos”, complementando, com seu bom humor e ironia: “No bom sentido, claro.”

Eu acho que o filho do também grande Erico Verissimo compreende muito bem o quanto é bobagem ou mesmo estupidez achar que existe algo muito diferente no Rio Grande do Sul que possa nos distinguir do “resto” do Brasil. Com certeza, existem diferenças, mas, muito mais, há semelhanças, identificações comuns e complementaridades, que nos fazem uma nação humanamente rica e cheia de positividades.

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