18 de out de 2008

Tradições postiças


*Estou publicando "pingado" aqui no blog os demais textos/comentários que estão reunidos no polígrafo "Além do Loiro Imigrante: História, Identidade Étnica e Exclusão Social na Região de Santa Cruz do Sul", que editei em 2005. Abaixo, mais um deles, feito a partir da leitura de um artigo do renomado professor Flávio Kothe.


Num texto muito instigante – Imigração e Colonização: Utopia e Identidade – publicado na revista do Mestrado em Desenvolvimento Regional da Unisc (Redes, vol. 6, número especial, pág. 105 a 127, maio de 2001), o santa-cruzense, professor Flávio Kothe, lecionando na Universidade de Brasília, com pós-doutorado nas universidades de Heidelberg, Konstaz, Bonn e Berlim, nos introduz em um entendimento pouco comum sobre as colônias formadas por imigrantes teutos, em especial as surgidas em meados do século 19, caso das da região de Santa Cruz do Sul. Ele diz que “Há uma ligação profunda entre a repressão conservadora à Revolução Liberal de 1848, na Alemanha, e a segunda onda de imigração alemã para o Brasil, a partir de 1849. Foi um projeto revolucionário, a maior distribuição igualitária do produto social, num país dominado pelo latifúndio escravagista. As idéias que não podiam ser postas em prática na Europa foram transpostas como utopia concreta para o Brasil.”

Ocorreu que, no processo (autoritário) de “assimilação” desse contingente de origem germânica no território brasileiro, as característica e propostas solidárias e liberais foram sucumbindo paulatinamente, dando lugar a arremedos de cultura e história. Kothe explica: “A maioria dos teuto-brasileiros descende de povos que vem sendo inexoravelmente extintos na Europa – pomeranos, silésios, sudetos, boêmios, lorenos, alsacianos alemães (...). No Brasil, essa consciência histórica tem sido sistematicamente reprimida, tanto pelo Estado, a escola e a Igreja, quanto pelos próprios teuto-brasileiros. Estes são levados, então, a se identificarem com a cultura dominante mais próxima, como o tipo gaúcho do sul do Jacuí, e ficam dançando fantasiados nos CTGs, usando bombacha e trovando, ou então se identificam com o estereótipo dominante do alemão, o bávaro, o tipo alemão mais reacionário, e daí celebram a Oktoberfest, usando calça curta de couro e erguendo canecões de cerveja, embora nenhum descenda de bávaros, pois não houve quase imigração de Bayern para o Brasil. Assumem como própria uma identidade e uma história alheia (...).”

Em relação aos políticos que representam as regiões de colonização alemã, o professor também é contundente, registrando que eles “não têm sido ‘conservadores’ no sentido de tentarem ‘conservar’ os princípios éticos de seus antepassados, mas por apoiarem o processo de uma crescente desigualdade social, apoiarem governos ditatoriais e ajudarem a destruir a identidade de grupos sociais diferenciados.” No mesmo parágrafo, Kothe arremata: “A história das regiões coloniais é, sob a aparência do êxito de sua concretização, a história da traição aos ideais fundantes. A política de ‘assimilação’ era necessária para que se aniquilassem esses ideais, e não se impusesse por toda parte o princípio da igualdade na distribuição de terras e na participação do poder, o princípio da liberdade de opinião, crença e de ir e vir, o princípio da fraternidade numa sociedade profundamente dividida em classes, camadas e minorias.”

O autor do artigo da revista Redes volta à carga, constatando que “Os brasileiros descendentes de imigrantes perderam a língua, a dança, a música, o teatro, os valores, a cultura, a história, a identidade dos antepassados. Não lhes foi permitido acrescentar, praticamente, nenhuma palavra à língua falada no Brasil, nenhuma contribuição cultural relevante. No máximo, com a pax romana instituída, foi permitido aos teuto-brasileiros cultivarem a sua “Oktoberfest”, uma festa típica de Munique, de uma cultura que nada tem a ver com a de seus antepassados: eles assumem como sua identidade o estereótipo vigente e, vestidos de Lederhosen, gritando alto e levantando canecões de Bier, ostentam, em sua alienação, a caricatura de si mesmos, a vulgarização que os mostra e demonstra como vulgares. Os revolucionários de outrora se revolvem em suas tumbas, mordendo a grama pelas raízes para não gritarem o fracasso de suas esperanças, a inutilidade dos seus esforços. Como eles não têm mais cordas vocais, também nada mais se ouve, tudo se torna apenas fantasia. O vento que sopra as sombras sobre suas tumbas parece apenas aplaudir o ridículo, o fracasso que vieram a ser os seus esforços ideais.”

O escrito é bem mais rico do que os fragmentos que aqui pinçamos, merecendo uma leitura completa e detida. De qualquer forma, como foi dito, estamos diante de uma perspectiva tão inusitada quanto potencialmente transformadora do modo de compreendermos a complexidade do fenômeno da imigração e colonização alemãs em Santa Cruz do Sul. Quem sabe também sirva para repensarmos este jeito artificial (e reacionário) de “cultivar a tradição” no município e região.

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