9 de nov de 2008

Paz à bala (um e-mail ao Paulinho em 2005)


Pois é, Paulinho, meu irmão. Não sei se tu chegaste a ver o Riovale da sexta-feira passada, 22/01/2005 (saiu também uma nota na Gazeta do Sul de 14/01). A manchete de capa do jornal, em letras garrafais, era "Guardas municipais poderão usar armas de fogo na cidade". Ao final do texto, é dito assim: "Para Wenzel [prefeito de Santa Cruz], a medida vai atender o desejo número um da comunidade, que é a segurança pública". Ou seja: armas de fogo significam segurança pública! Santa Cruz ficará mais segura porque alguns servidores públicos poderão portar revólveres! Não é um contrasenso? É isso uma política de segurança pública? Todas as campanhas de desarmamento e o trabalho de reversão da idéia de que "arma é proteção", e aí vem o prefeito e diz uma coisa dessas... Será que há algum estudo da prefeitura sobre a necessidade dos guardas municipais portarem armas? Isso está fazendo falta verdadeiramente? Os guardas com armas não são algo ainda mais perigoso - tanto para o portador quanto para a população em geral, gerando um clima de belicismo ("bandidos" e "mocinhos" agora estão armados!) maior ainda? Acho que devíamos pensar sobre esse acontecimento aqui na cidade e levar para as autoridades locais uma contraproposta. Não é nem uma questão de "impedir radicalmente" a guarda de usar armas de fogo, mas que isso, ao menos, não seja colocado como "uma grande medida para a segurança pública". Qual a mensagem que a administração pública de Santa Cruz está passando aos santa-cruzenses? Para se proteger, só à bala... Preparemo-nos para o bangue-bangue e para chorarmos as balas perdidas...

Um abraço!

Iuri

***Outra matéria que saiu esses dias na imprensa local, ou melhor, na Gazeta do Sul (12 e 13/03/2005): “A paz está invadindo a Zona Sul”, com a palavra “paz” em destaque (página 25). Ilustrando a matéria, há uma foto, onde se vê, dentro de um veículo da Brigada Militar, um soldado com uma arma de cano longo e bojudo para fora da janela, dando a idéia que o veículo faz uma ronda pelas ruas dos bairros. O que se diz com isso? Ora, que a tal “paz” na zona sul se faz pelas armas, demonstrando, na verdade, que estamos numa situação de beligerância, de guerra, onde para contrapor o uso de armamentos, é preciso armar-se também. Muito pequeno, no canto inferior da página, se fala em “centros ocupacionais” (que já uma denominação desgraçada) para crianças e adolescentes, na tentativa de reagir ao processo de marginalização por outros caminhos que não “gasolina para apagar o fogo”, ou seja, armas contra armas, violência com violência etc.

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