21 de dez de 2009

Aliens... of the deep


Talvez vários aqui já tenha assistido este documentário (produção de 2004, da Disney Pictures) do diretor Cameron, de Titanic e, agora (2009), de Avatar. Por conta de uma reportagem que li na Veja (16/12/2009), fui pesquisar o filme no YouTube e achei até uma versão dublada em português (há legendada também). É algo muito muito bacana para quem gosta de pesquisas sobre lugares, estruturas, fenômenos e seres que jamais estão e acontecem na crosta terrestre. No caso, lugares e criaturas onde a luz solar, nosso alimento primevo, do qual somos totalmente dependentes, não atinge. A ecuridão é completa e está assim por milhões de anos. Literalmente, um outro mundo...

O título em português – Criaturas das profundezas – perdeu bastante a conotação, digamos assim, ufológica, ao optar pela palavra “criaturas” ao invés de “alienígenas” (Aliens of the deep). Uma pena e talvez haja aí um preconceito embutido nessa “opção”...


Na equipe do projeto capitaneada pelo obstinado James, estão não só biólogos marinhos, mas astrofísicos e exobiólogos - caracterizando que ali se estava lidando, buscando, investigando vida alienígena, seja na Terra ou outros lugares.

Há cismólogos – especializados em vulcões submarinos, astronautas e técnicos que trabalharam em missões espaciais, incluindo russos e seus equipamentos. Falam do programa Seti, o Search for Extra-Terrestrial Intelligence, um programa que busca sinais emitidos por seres inteligentes, mas que, por congregar instituições como a Nasa, não tem a apreciação jocosa, carregada de menosprezo, que tem a investigação mesmo quando parte dos mais sérios ufólogos mundiais...

O pessoal chega a profundidades de mais de 3 mil e 500 – três quilômetros e meio para baixo da água – uma massa absurda como teto; uma “atmosfera” de um peso insuportável; ambientes completamente fatais para os humanos.

Lá há seres que não necessitam de sol, prescindem da fotossíntese; sobrevivem do calor e produtos químicos – fazem uma quimiosíntese. Algo completamente diferente e também não-imaginável; pressões e temperaturas contrastantes – do congelante ao calor de 400 graus (Celsius) em poucos segundos ou centímetros...


Além das imagens fabulosas das criaturas e ambientes, o documentário faz fusões, mostrando as ligações entre a exploração de vidas marinhas nas altas profundidades e as possibilidades de vida em luas de Júpiter, por exemplo. Há uma fantástica especulação sobre a vida em Europa, que poderia guardar semelhanças com a vida encontrada no fundo dos oceanos da Terra.

E os submergíveis são naves espaciais explorando - não o espaço ou atmosferas de planetas, mas espaços onde humanos jamais estiveram, mas têm similaridades e utilidades posteriores para a pesquisa de vida extraterrestre.

Todo a eletricidade, a excitação da aventura, a emoção das visões, de verdadeiras descobertas, desvelamentos comoventes. Aparecem em frente aos olhos criaturas bizarras se movimentando – peixes, lulas, águas-vivas de formatos, detalhes e cores que talvez nem a mais poderosa imaginação poderia moldá-las – que dirá dar-lhes vida. Uma inteligência misteriosa e inacessível em seus desígnios está todo tempo se anunciando nestes “aliens” das profundezas oceânicas. Anunciam que a vida pode se constituir de modos além do poder humano de compreensão. Resta-nos o maravilhamento, a contemplação boquiaberta da nossa grande limitação – embora todos os aparatos tecnológicos e reflexões especulativas que desenvolvemos e nos possibilitam manipular forças e recursos da natureza.



Ao deparar-se por uma incrível situação de simbiose entre uma espécie de verme e bactérias cilíndricos, nas cores branco e vermelho, respectivamente, alimentando-se do calor e sulfatos emitidos por jatos do fundo da terra, a cientista se pergunta:

“Não teríamos imaginado estes animais se não existissem. Pergunto-me: o que mais haverá no oceano à espera de ser descoberto?”

Cameron diz que apesar de quão estupendos possam ser seres como os micróbios, ele deseja é encontrar-se com criaturas que sejam “bons conversadores”. Como muitos de nós, James quer estabelecer uma comunicação o mais próxima possível do verbal ou ao menos telepática... Tudo indica que esse dia chegará – se é que já não chegou...



Aliens of the Deep (Criaturas das Profundezas)

Sinopse (Interfilmes):

O cineasta James Cameron deixou bem claro seu interesse pelas profundezas do oceano ao filmar Titanic. Desde esse seu grande sucesso, Cameron não tem investido muito no trabalho atrás das câmeras até a produção deste documentário em média-metragem que se trata de um mistério do fundo do mar: a possível existência de vida extraterrestre, de acordo com algumas teorias. Acompanhado de jovens cientistas da NASA e biólogos marinhos, Cameron parte para uma expedição e compartilha com os espectadores esses mistérios.

Sinopse (reproduzida no YouTube):

Vermes de quase dois metros, caranguejos cegos, uma biomassa de camarões brancos. Prepare-se para uma incrível viagem com o diretor vencedor do Oscar, James Cameron (Melhor Diretor, Titanic, 1997), e faça contatos com um mundo completamente diferente. Em uma emocionante aventura sob a água, conheça criaturas alienígenas que vivem sem a luz do sol, em um ambiente em que a água pode congelar ou ferver a qualquer momento. Seriam estas criaturas indícios da existência de vida fora do planeta? Divirta-se com impressionantes descobertas.

Um link com a primeira parte do documentário no YouTube:

http://www.youtube.com/watch?v=ROMEmk8U8vs

19 de dez de 2009

Fermentação entérica ameaça o planeta



Pessoal,

Juntando uns e-mails da lista do MGU, montei a seguinte reflexão, aproveitando que está terminando a COP15.

Abraços!

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Fermentação entérica ameaça o planeta

Esta findando a conferência de Compenhague, a COP15. Assunto fundamentais para a sobrevivência da nossa "Nave Mãe" estavam e estão em jogo. Um fato que achei bastante interessante se refere a uma das nossas manipulações da população terráquea: a dos bovinos, nossos irmãos (reportagem no final). Um número estratosférico (!!!) desses seres e companheiros terráqueos, que predamos para nossa alimentação, ao emitirem em especial seus "arrotos" digestivos (os técnicos chama de "fermentação entérica"), num volume constante e impressionante, ao se somarem com outras consequencias da pecuária intensiva, tem significado "quase a metade de todos os gases causadores do efeito estufa no Brasil".

Ou seja, nossas relações com outros seres terrestres é de uma dominação bárbara, irresponsável e estúpida, porque ameaça até mesmo aquele que se pretende "O Rei da Criação"... Se agimos assim, sem consideração ao próprio planeta e companheiros animais e vegetais que conosco convivem, como seria com outros seres e lugares???

Falando em gado, eu tenho simpatias pelo vegetarianismo. Há mais de 20 anos não costumo comer carne, em especial de mamíferos. Em muitas concepções de formação da corporidade animal (incluindo o animal humano, obviamente), existe o "corpo astral", campo energético que mantem-se agregado ao corpo físico por tempos, mesmo após a morte, interferindo na "astralidade" da pessoa que consome a carne, com consequências físicas e “espirituais” no sujeito “carnívoro”.

Não como carne também por motivos estéticos - acho meio horripilante um animal esquartejado, como se vê em açougues. E motivos éticos: o sofrimento de um boi ou porco são tão evidentes; os gemidos, gritos e o pavor tão notórios, que tento evitar a cumplicidade com a crueldade implicada (cumplicidade) na matança.

Como onívoros conscientes, nós, animais humanos, podemos escolher nossa alimentação. Eu como carne esporadicamente, caso sinta muita vontade ou necessidade protéica, ou queira compartilhar com outras pessoas um determinado momento de refeição ou festejo. Muitos povos são carnívoros quase 100%, caso dos esquimós, pelo que sei. Morreriam se não comessem outros animais. Claro que isso parece ser feito - a morte, a caça, a preparação e o consumo (e não só os músculos são comidos, mas até o conteúdo do estômago e intestino) - dentro de uma ritualidade e enorme respeito ao ser sacrificado.

Mas voltando ao assunto anterior, na notícia justamente me chamou a atenção é que não se trada dos "flatos" (“peido” ou “pum”, no popular) dos bovinos ou outro animal. Essa grande quantidade de metano (CH4) que colabora no efeito estufa é produzida por herbívoros, que possuem o "rúmem", o "pré-estômago", e então "arrotam" o gás naturalmente, dentro do seu processo digestivo, a tal "fermentação entérica" mencionada - uma característica dos ruminantes.

Mas a nocividade vem, na verdade, da quantidade ou volume produzido. Uma coisa é meia dúzia de bois; outra, é uma população de milhões "arrotando" ao mesmo tempo e sem parar...
E quem desenvolveu uma população bovina desse tamanho aberrante?? Ora, quem se não os queridinhos de Deus ("Crescei e multiplicai-vos...")? Aqueles que se acham o "ápice" do processo evolutivo do Cosmos...

Sobre a pesquisa, inclui na chefia dos trabalhos um cientista do INPE, o nosso Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, além da Universidade Federal de Brasília (UnB) e outras instituições que me parecem confiáveis.

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Metade das emissões de gases-estufa do Brasil vem da pecuária

Publicada em 11/12/2009 às 11h03m

BRASÍLIA - O rebanho bovino brasileiro emite anualmente quase metade de todos os gases causadores do efeito estufa no Brasil. E a abertura de novas áreas de pastagens responde por 75% da área devastada na Amazônia e por 56,5% no Cerrado do país, estima um estudo inédito coordenado pelos pesquisadores Mercedes Bustamante (UnB), Carlos Nobre (Inpe) e Roberto Smeraldi (Amigos da Terra).

O levantamento, a ser divulgado amanhã na conferência sobre mudanças climáticas em Copenhague, aponta para o " potencial " de redução de emissões pela pecuária nacional. Essa concentração das emissões do país num único segmento seria, segundo os pesquisadores, " a mais importante " oportunidade de mitigação no Brasil.

"Devemos caminhar para uma agricultura integrada ao ambiente tropical, científica e tecnológica, que aumenta sua eficiência, diminui seu impacto ambiental, inclusive em emissões" , diz o climatologista Carlos Nobre. As opções de mitigação pelo setor "não implicam o corte na produção atual" e podem ser compatíveis com a " elevação moderada " da produção. A compensação ambiental poderia ser feita via redução do desmatamento, eliminação do fogo no manejo de pastagens, recuperação de áreas e solos degradados, regeneração da floresta secundária, redução da fermentação entérica e implantação do sistema misto de integração lavoura-pecuária.

A pesquisa avalia as três principais fontes de emissão do setor: desmatamento para formação de pastagem e queimadas da vegetação derrubada, além de queimadas de pastagem e fermentação entérica do gado (o chamado " arroto " do rebanho). O estudo não considera, porém, emissões de solos de pastagens degradadas, da produção da ração, de grãos, do transporte e dos frigoríficos. Os cálculos seriam assim " conservadores " , pois não foi computado ainda o desmatamento fora da Amazônia e do Cerrado.

O estudo, assinado por dez cientistas, diz que as emissões da pecuária bovina caíram para 813 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) equivalente no ano passado, de 1,09 bilhão de toneladas em 2003. A emissão total associada à pecuária na Amazônia passou de 775 milhões de toneladas de CO2 a 499 milhões. No Cerrado, o volume foi de 231 milhões de toneladas a 229 milhões. Nas demais regiões do país, as emissões passaram de 87 milhões a 84 milhões.

O trabalho científico avalia que a alteração no cenário das emissões deve incluir o fim da impunidade nas grilagens de terras da União na Amazônia e a aplicação do decreto de crimes e infrações ambientais. " Há uma relação clara entre essa impunidade, a especulação fundiária desenfreada e a degradação das florestas, especialmente na Amazônia " , afirma. A implantação de grandes frigoríficos seria o " principal motor " da expansão descontrolada e sem precedentes da atividade pecuária.

" A sustentabilidade econômica da indústria da carne requer drástica queda em carbono-intensividade " , diz Roberto Smeraldi, da ONG Amigos da Terra.

FONTE: http://oglobo.globo.com

12 de out de 2009

O Gênesis segundo Robert Crumb


No Segundo Caderno do jornal Zero Hora de 07/100/2009 saiu uma reportagem de Fernando Eichenberg sobre a nova obra do visceral desenhista Robert Crumb. Quero ressaltar e comentar algumas coisas entre várias que achei interessantes.

Trata-se de uma versão em HQ ("quadrinhos" é um termos meio "menosprezativo") feita por um autor referencial no movimento contra-cultural dos anos 1960/70 nos EUA e mundo afora, famoso por suas abordagens debochadas, críticas e também surreais e lissérgicas do "mundo em que vivemos" e da própria contra-cultura.

A surpresa é que Crumb teria feito uma obra que segue ipsis litteris o clássico texto bíblico, o Gênesis - depois de muitas leituras, comparações, enfim, estudos que lhe tomaram um tempo longo, realizado com meticulosidade anormal.

Mas não nos enganemos com algum tipo de conversão do velho safado (está com 66 anos), criador dos antológicos Mr. Natural e Fritz The Cat. O editor francês de Crumb diz que "É um trabalho subversivo porque remete à Bíblia de uma forma nunca feita antes, não religiosa, mas como um texto fundamental, de nossas origens". Está "Repleto de violência, estupros, assassinatos, incestos, traições", observa o repórter. Crumb fala: "Há uma moralidade primitiva [no Gênesis]. E em certas partes não se vê nenhuma moral. As histórias matriarcais no livro são marcantes. Há fortes personagens femininos. Eu fiquei surpreso aos descobrir isso".

Apesar de Crumb considerar a existência de "uma misteriosa força superior, algo maior do que nós", ele está anos-luz de ser um crente. Na verdade, Crumb se "espanta" com pessoas que ainda consideram os textos bíblicos como "'palavra de Deus' e não produto do homem":
"Para mim, não é um texto sagrado, mas um mito com muitas histórias e imagens vigorosas".
Ou seja, uma literatura - mas uma literatura que forja cosmovisões de um modo profundo e se introduz em camadas do nosso ser de um modo seminal (perdão pela alusão quase sexual, mas é isso aí mesmo!).
Me parece que o objetivo de Crumb é dos mais louváveis (Aleluia!): "Minha intenção foi a de iluminar o texto, lhe dar outra dimensão, ilustrando tudo o que está nele, cada pequeno detalhe, para que as pessoas realmente saibam o que contém."

E ele está pronto para reações adversas, bastante previsíveis, tal o fundamentalismo em vigor nas hostes "cristãs" (Jesus, tem piedade!): "Alguns sempre encontrarão algo para se sentir ofendidos. Talvez decidam que eu deva ser morto."
Bah!
Norte-americano, Crumb auto-exilou-se na França, morando em uma cidadezinha com ares medievais, chamada Sauve; leva uma vida pacata, divertindo-se com sua coleção de 5 mil discos raros de 78 rotações, ao lado da mulher e filha.
*Na ilustração, o "velho barbudo" escolhido por Crumb para ilustrar Deus. Ele (Crumb!) teria cogitado em personificar (e antropomorfizar) o "Todo-Poderoso" como uma mulher negra, mas optou pelo tradicional patriarca. Coerente com as histórias bíblicas, Crumb diz ter sonhado com Deus neste "formato" - "Foi um dos sonhos mais forte que já tive", disse o iluminado desenhista. Assim seja!
**Na revista Piauí, que tem publicado quadrinhos de Crumb, sairam dois capítulos do seu Gênesis. Quando der, vou reproduzir aqui partes da introdução escritas pelo desenhista...

Por e-mail, contrapontos

Há anos estamos tentando colocar contrapontos a algo que acaba se configurando como uma pesada violência simbólica, na acepção trazida pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu: o estabelecimento de uma identidade dominante para a comunidade santa-cruzense, ou seja, “germânica” - palavra que já encerra uma miríade de associações, tal a sua abrangência e interpretações complexas.

Nestes empenhos de "germanizar" Santa Cruz, outros grupos são invisibilizados e pessoas que não se adequam a tal “origem” têm o seu “capital social” - outro termo de Bourdieu - desvalorizado, e permanecem numa marginalidade de pertencimento comunitário; seres subalternos, menosprezados, submetidos por uma historiografia e aparato simbólico-turístico exclusores, forjados por ideólogos da "germanidade" local.

Nada pessoal contra tais intelectuais, mas seus desejos, objetivos e empenhos não são inócuos e indolores. Por isso acredito que é preciso manter-se uma crítica a este tipo de “arrazoado” – quase sempre mais sentimental do que uma argumentação de fôlego –, para que não se continue impondo concepções marginalizadoras. Enfim, acredito que nem tudo se pode fazer em nome de orgulhos étnicos e viabilidade turística.

Como uma forma de "resistência", muitas pessoas usam e-mails, mostrando-se contrários, contrargumentando. Abaixo vou postar alguns meus, enviados esporadicamente para alguns destes intelectuais (dois deles, no caso), que têm amplo acesso à imprensa, a produções intelectuais (livros, fascículos, programas de rádio etc.) e são demandados para palestras seguidamente.

Não vou usar o nome das pessoas a quem se direcionaram as mensagens, até porque o que interessa mesmo é a argumentação e os dados que acabei apresentando de uma forma bem livre.

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Professora,

Tenho acompanhado os textos da senhora que saem na Gazeta do Sul. Li também aquele que saiu no livro Fragmentos de Vida organizado pelo professor Schneider. Pareces ser uma pessoa dedicada e sensível, mas, em alguns pontos, com todo respeito, não posso concordar com suas posições.

No último, na primeira parte, publicado em 23/05 na página 2 da Gazeta do Sul, a senhora parece, em minha opinião, repetir uma argumentação em superação. O historiador Mário Maestri, na revista Vox (IEL, número 7), faz uma referência a isso no artigo A lei do Silêncio: história e mito da imigração ítalo-gaúcha. A perspectiva apresentada por Maestri, creio, pode ser perfeitamente transposta, com as devidas particularidades, ao caso das colônias teuto-gaúchas, onde entraria, sem dúvida, Santa Cruz do Sul. Cito alguns trechos:

“Na Região Colonial Italiana, ainda hoje, é forte a recordação de violentos atos policiais contra colonos por falarem e cantarem em italiano; de crianças levando bilhetes para realizarem as compras familiares; do terror lingüístico conhecido pelos moradores das distantes linhas. Para essas memórias, os falares itálicos jamais teriam se recuperado dos golpes causados pela Lei do Silêncio. Essa interpretação nunca foi confirmada ou infirmada por estudos históricos. A explicação da dominância lingüística do português e do desaparecimento dos falares itálicos devido à repressão do Estado Novo aponta causa exógena à comunidade colonial para fenômeno essencialmente endógeno a ela – suas práticas lingüísticas.”

Adiante, no mesmo artigo, Maestri, ao comentar um trabalho acadêmico da historiadora Cláudia Mara Sganzerla – A lei do silêncio –, diz que, partindo do pressuposto que houve um “golpe fatal” da repressão lingüística durante o Estado Novo, a pesquisadora “abandonou as hipóteses iniciais ao, surpresa, não se deparar, para a região, com o decantado rosário de repressões e violências aos falares italianos. (...) Após contextualizar e hierarquizar os atos policiais e institucionais do Estado Novo, enquadrando-os espacial e temporalmente, Cláudia Mara traçou paisagem histórica bastante mais nuançada, precisa e complexa, rompendo com as interpretações maniqueístas correntes sobre a política de nacionalização da região. (...) Sem descurar as seqüelas das violências varguistas, corroborando investigações lingüísticas concluídas e em conclusão, Cláudia Mara sugere que as razões últimas da superação do talian sejam mais estruturais, encontrando-se aquém e além da Lei do Silêncio: crescente inserção da Região Colonial Italiana na economia nacional; desenvolvimento da mídia e da rede de ensino; interesse dos pais que os filhos dominassem o português, etc. A Lei do Silêncio: Repressão e nacionalização no Estado Novo em Guaporé (1937- 1945) [esse é o título do trabalho que Maestri está comentando], de Cláudia Mara Sganzerla, certamente apoiará outros estudos que ampliem a área analisada e, através da objetivação crítica dos fatos analisados, contribuam à superação da ainda importante opacidade criada por visões mitológicas e ideológicas do passado sulino e brasileiro.”

Senhora, a sua defesa de que “a diversidade existe, mas não é expressiva, historicamente falando, e muito menos, ‘desde os seus primórdios’ [onde parece citar-me sem fazer referência ao meu nome]”, parece querer legitimar a exclusão de outros grupos étnicos da formação de Santa Cruz do Sul, menosprezando a importância de inúmeras pessoas que colaboraram na conformação do município, antes mesmo de 1849. Permita-me colocar abaixo três pequenos artigos que escrevi ano passado, a partir das reflexões que realizamos junto ao Coletivo de Estudos e Debates Étnicos e Culturais de Santa Cruz do Sul (Cedecs), que se referem, em especial, aos negros e negras. Os textos sintetizam um pouco do que penso e a necessidade de se relativizar a “origem alemã” do lugar. Embora sem pretensões, sem seguir o “rigor científico” – e considerando que foram feitos para um jornal popular e não uma revista acadêmica – são todos pautados em “pesquisas sérias”, incluindo os escritos do professor Sílvio Correa [não estão colocados aqui].


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Professora,

Continuo acompanhando seus artigos no jornal e, por circunstância, um último que li, na Gazeta do Sul de 6 e 7 de outubro de 2007, Die Oktoberfeste. E também continuo a dizer que admiro a sua dedicação apaixonada pelo resgate/construção da identidade teuto-descendente aqui em Santa Cruz. Mas há momento em que julgo haver, para além de romantismos históricos e “polianice” em relação a Oktober, um abuso à beira da ofensa. A quem a senhora se refere quando diz “Nossa Oktoberfest” e “nossa região”? Eu estou incluído? Também estou tentando entender o que significa "a cultura e as tradições daqueles que historicamente transformaram este espaço [suponho que seja a região de Santa Cruz] natural e cultural”. Vou ser repetitivo: Meus parentes e parentes de meus amigos santa-cruzenses sem sobrenomes “alemães” estão fora? Os imigrantes e teuto-descendentes fizeram todas as coisas sozinhos? Nunca houve cultura anterior aqui no Vale do Rio Pardo e mesmo em Santa Cruz? O que dizer do Faxinal do João Faria, por exemplo? Não existiu este povoado [que deu origem à cidade]? Não houve nenhuma interação? Não houve em meio às comunidades teutas outras pessoas de outras procedências? Não houve alguma influência, a não ser o que trouxeram do centro da miserável Europa de meados do século XIX? Parece-me algo que se choca frontalmente com todas as evidências e a básica historiografia que tente escapar de exageros ideológicos. Se a senhora luta pela afirmação de uma identidade “alemã” para Santa Cruz, por outro lado, eu e muitas outras pessoas temos nos empenhado em “abrir” as perspectivas identitárias para algo integrador e policultural, evitando exclusões (sempre me vem à cabeça que será muito improvável que uma soberana da Oktober seja uma negra, mesmo que seus tataravôs tenham nascido aqui no município e a moça seja tão ou mais lindas que nossas doces Rapunzéis). Noto uma violência tremenda nisso, que é preciso avaliar muito bem os impactos.


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Prezada professora,

Muito importante as suas preocupações manifestadas no artigo “Nossa Linha Santa Cruz”. E uma oportunidade para irmos até além, percebendo que sempre há uma composição de gentes envolvidas na formação de uma comunidade, mesmo que pequena. Caso contrário, se acreditarmos em “purezas” e “direitos maiores” de um grupo, bem fácil caímos na discriminação e seus subprodutos perversos e que tanta dor já causaram (e ainda causam) à humanidade. E isso vale pra qualquer grupo social ou étnico-racial.

A senhora diz “Nós vivemos aqui e agora, antes de nós outros vieram e depois de nós outros viveram e depois de nós viverão. Não podemos perder de vista esta dimensão temporal histórica, social e cultural que constitui e constrói nosso lugar.”

Acho certíssimo e por isso até podemos recuar ainda mais quando falamos em Santa Cruz do Sul e em Linha Santa Cruz. A senhora sabe que devemos considerar que a picada se constrói em torno de antiguíssimas trilhas de povos indígenas (e depois caminhos de tropeiros vagos) que circulavam a região desde milênios, descendo e subindo a serra, do planalto até o rio Jacuí, limite natural com o pampa gaúcho.

A senhora também sabe que a picada foi originalmente aberta por trabalhadores negros e peões sob mando de empreiteiros e outros servidores pagos com recursos públicos, e que ganhou o nome de Picada do Abel – antes de se chamar Linha Santa Cruz –, alusão ao empreiteiro contratado anos antes da introdução dos primeiros 12 assentados, o sr. Abel Corrêa da Câmara – mas que acabou sendo levada a cabo (por outorga da lei provincial nº 111, de 6 de dezembro de 1847) por outro empreiteiro, Delfino dos Santos Moraes.

A senhora sabe que, a rigor, se trata de uma licença ideológica se dizer que estas primeiras levas são de “alemães”, já que não há o país e que muitos, mesmo considerando a divisão territorial européia de hoje, seriam poloneses (caso de 11 pessoas da primeira leva de 12). *A propósito, segue mais abaixo o comentário que publiquei no meu blog falando justamente disso [não colocado aqui].

Também dizer que eram terras despovoadas é impreciso, professora. Já há informações suficientes para demonstrar-se que toda a colonização com povos germânicos e outras gentes no Vale do Rio Pardo não se dá num vazio populacional. Como mencionei, considere-se os grupos indígenas que aqui se assentavam e circulavam sistematicamente desde séculos (até reduções jesuítico-guaranis tivemos nos anos de 1630 aqui no vale – inclusive uma em pleno território de Santa Cruz, a redução San Cristóbal, com 950 pessoas); considere-se os aquilombamentos, com negros e outros “parias” fugidos das cidades e fazendas na região, em especial de Rio Pardo, embretados em matas e montanhas (e sempre recuando na medida que os loteamentos rurais vão expandindo-se pela serra); considere-se os ocupantes e sesmeiros luso-brasileiros, trabalhadores negros e outros agregados que aqui estavam estabelecidos e conformavam o Faxinal do João Faria e rancharias ainda mais modestas espalhadas nos arredores.

Não entendo como esta riqueza de gentes, de referências geográfica, sociais e culturais é desprestigiada e mesmo desconstituída com discursos que forçam exclusivismos e purezas que me parecem mais fetiches de identidades étnico-raciais, cujos pressupostos, a menor contraposição seriamente embasada, “se desmancham no ar”, aludindo a outro intelectual alemão admirável, Karl Heinrich Marx. **Também a propósito, segue outro comentário sobre o assunto que postei no meu blog [não colocado aqui].

Agradeço a atenção e desejo tudo de bom.


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Prezado:

Leio esporadicamente com muito interesse a sua coluna no Riovale. Dias atrás, um fragmento me chamou a atenção: havia uma crítica a manifestações questionando o questionamento que historiadores e ativistas têm colocado na imprensa. O chapéu me serviu e então resolvi, cordialmente, mandar-lhe este e-mail.

Não se trata, como sempre digo, de menosprezar, muito menos negar toda a carga de dificuldades, esforço e sofrimento de milhares de indivíduos e famílias imigrantes e descendentes que se assentaram na região de Santa Cruz do Sul, em especial (mas não unicamente) alemãs. O questionamento se refere ao tom grandiloquente e mitificador, que parece tentar concentrar todas as virtudes em um ou dois grupos específicos, esquecendo que somos, independente de referências geográficas e culturais, seres humanos...

Recentemente, o senhor deve ter acompanhado, registrou-se os “130 anos da presença italiana no RS”. O caderno de cultura do jornal Zero Hora publicou uma série de textos, cujo enfoque e conclusões são perfeitamente aplicáveis para o caso da “presença alemã” no estado: recupera-se “a dimensão humana da vida da colônia, para além dos discursos laudatórios”. No artigo da professora Corteze, destaca-se que “O mito de um colono predestinado simplifica, estereotipa e empobrece a complexa história da imigração italiana.” No do professor Maestri, levanta-se a idealização de muita produção historiográfica, que escamoteia “contradições, tropeços e desastres”, propondo-se que o “progresso” da região deriva de uma essencialidade étnica do colono itálico, em contraposição (mesmo que não mencionada) aos povos nativos, caboclos, afro-descendentes etc., que “fracassaram” por “razões intrínsecas à raça”. Só para citar mais um artigo, da lingüista Florence Carboni, que aponta a simplificação ingênua de acredita que os falares itálicos nas colônias da serra gaúcha sucumbiram por conta tão somente restrições que ocorreram durante um período (três anos, mais exatamente) do governo de Getúlio Vargas, que, aliás, flertou por longo tempo com os países do Eixo...


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Senhor,

Muito interessante a sua crônica na GS de quarta-feira, 21/03. Aliás, acompanho-as sempre que possível, às vezes lendo na corrida, desde quando saía no Riovale. Penso sempre em fazer algum comentário, mas na hora “H”, acabo me envolvendo com meus afazeres, e perco a “inspiração súbita”.

Como me interesso pela “questão étnica”, as inter-relações entre grupos – ainda mais em nossa região –, prestei um pouco mais de atenção no seu último texto. E ponderei que a consideração final, de que não houve “interpenetração social e cultural” entre ciganos, tropeiros, negros – poderíamos falar de índios e diversos outros grupos migrantes e imigrantes – pode ser relativizada ou vista de outra forma. Para mim, não existe convivência, por mínima que seja, que não implique em mútuas, diversas, sutis ou “descaradas” interpenetrações culturais, sociais, etc. Um exemplo prosaico: o hábito do chimarrão. Acho que não se pode dizer que na região da hoje Alemanha, havia o consumo da erva-mate. Pra ficar no campo da gastronomia ainda: e o que dizer do consumo de feijão – algo aprendido pelos colonos nos primeiros dias de chegada ao Brasil? (Caso disponha de algum tempo, mando-lhe um comentário meu falando sobre as memórias de Luis Panke e a relação que estabeleci entre a mencionada leguminosa e os imigrantes em Rio Pardinho.)

Outra observação: Em relação aos negros, não creio que se possam reduzir as relações entre imigrantes teutos (entre outros) e seus descendentes como uma “acolhida” – mesmo que isso tenha de fato acontecido e seja algo louvável, emocionante, mesmo. Apesar das “proibições”, houve na região imigrantes que possuíram escravos, além de sistemas de “apadrinhamento” que, ao cabo, podem ser caracterizados com um regime de trabalho de servidão. A situação de proscritos – vivendo aquilombados em vários pontos do Vale do Rio Pardo, já bem antes de 1849 –, de miserabilidade, de discriminação sistemática – apoiada numa poderosa ideologia racista – de negros e mestiços (não-brancos em geral) os colocavam (e ainda colocam, basta ver os dados sócio-econômicos do Brasil de hoje) em situações de subalternidade, de submissão, de exploração medonhas. Nas zonas de colonização isso também aconteceu.

Penso que na “saga da colonização” está também a saga ou a tragédia do povo afro-descendente, dos autóctones americanos, de outros tantos povos que por aqui estavam e estão – até mesmo ciganos, grupo, como sabes, originado na mítica Índia, mantendo, ainda, explicitamente, elementos culturais daquele distante oriente. Ou seja, a saga não é algo feito em isolamento, creio eu. É algo complexo, cheio de “detalhes”, para além de romantismos. A saga dos colonos é a saga de todos nós, brasileiros, seres inapelável e culturalmente híbridos, onde não existem “purismos”. E me parece que “purismos” só servem para fertilizar “ovos de serpente” – algo que, infelizmente, não foi superado, mesmo com tantos exemplos de matança horríveis em nome de credos de vários tipos.

Agradeço a atenção. Abraço fraternal.

4 de out de 2009

Fumo: nem anjo, nem demônio


Embora se possam traçar diversos paralelos com o sorver de um vinho ou um café, hábitos conviviais, aceitos e incentivados socialmente, fumar, ao contrário, tornou-se uma prática quase sempre solitária ou realizada em restritas confrarias. Talvez estejamos diante de um (obrigatório) retorno aos antigos “clubes de apreciadores”, onde, inclusive, envergava-se o smoking – originalmente, como se sabe, uma capa (smoking jacket - ilustração ao lado) usada para os “encontros de fumantes”.

E acho que está certo este encaminhamento. O fumar implica em responsabilidades derivadas da exalação da fumaça e seus componentes potencialmente nocivos.

Particularmente, aprecio fumar – de forma esporádica, em momentos especiais, de preferência cigarros e cigarrilhas de tabaco produzidas artesanalmente, sem aspirar a fumaça até os pulmões (“tragar”), aproveitando o efeito estimulante da nicotina de uma forma branda e buscando, muito mais, usufruir dos sabores e aromas da queima das folhas, permitindo, além disso, que o corpo tenha melhor capacidade de se auto-desintoxicar.

Entretanto, sou favorável às advertências, restrições, taxações e proibições sobre o consumo do tabaco, desde que não tolha a liberdade e direito alheios (que presupõe deveres). Nenhuma pessoa, em especial crianças e adolescentes, deve ser submetida a ambientes com gente fumando – públicos ou privados, mesmo em família. Também não deveria haver estímulo algum – e o banimento da propaganda em rádio e TVs abertas e em revistas, jornais e sites voltados ao público em geral são formas acertadas para evitar o consumo precoce. Isso porque, como vários outros produtos com elementos que podem levar à dependência química, fumar tabaco é uma decisão que só pode ser tomada – se for o caso – na adultez, ou seja, de posse do pleno equilíbrio e maturidade psicológicos e físicos.

Outra questão: tenho como lamentável a compulsão ao fumo. Não é trágico que uma prática derivada do uso medicinal e religioso de povos indígenas venha a se tornar um flagelo pessoal e social? Parece-me muito triste uma planta enteógena, xamãnica, banalizar-se tanto e perverter-se pelo “vício”, pelo hábito descontrolado e sujeição do usuário, levando-o a deterioração da saúde e conseqüentes prejuízos à comunidade – por acarretar a necessidade de remédios, tratamentos, hospitalização e seguros por invalidez financiados com recursos públicos.

A mesma situação em relação ao álcool, o psicoativo talvez mais antigo, tradicional e globalizado que existe. Pois uma coisa é beber um cálice de algum bom cabernet sauvignon de maneira eventual. Outra é tornar-se um alcoolista.

Não há sempre uma relação direta entre beber e ser um “bêbado”. Nem fumar e ser uma “tabagista”. Mas riscos sempre haverá e alguns terão que se abster por sua compleição corporal ou/e inclinação psicofísica drogadicta. Parece-me que cada indivíduo deve construir os seus limites através de muita informação e auto-análise, enfim, muita consciência.

Consideradas essas “premissas”, vencidos esses “poréns”, fumar pode ser um prazer, uma grande satisfação. Na ritualística da combustão das folhas desta bela solanácea (uma planta também considerada ornamental), os apreciadores vêm desencadear-se um processo que leva ao deleite estético, aromático e gustativo únicos.

Vários com certeza se horrorizarão das minhas opiniões. Existe mesmo uma “satanização” do fumo – que, como no caso de outros produtos, não tem levado a resultados práticos e, me parece, até colaboram para a expansão de consumos perniciosos.

Fumar com parcimônia – assim como beber com parcimônia (para mantemo-nos na comparação já feita) – são práticas que adultos podem (ou não) incorporar em suas vidas como fontes de auto-gratificação; sempre realizadas com a devida responsabilidade, porque o tabaco, assim como o álcool, não são inofensivos, angelicais. Mas também não são demônios implacáveis.

“Nem tanto ao céu, nem tanto à terra” parece um conselho sábio para não cairmos em radicalismos estagnantes. Sem considerar o colapso econômico em várias regiões que acarretaria (e não considerando neste momento questões como exploração de mão de obra e uso intensivo de agrotóxicos na fumicultura), a extinção do consumo de um vegetal milenar é praticamente impossível, desnecessário, ineficaz. Há, sim, meios de diminuirmos prejuízos coletivos, preservando liberdades.

27 de set de 2009

Sobre o sonho



“O sonho é uma pequena porta escondida nos recantos mais íntimos e secretos da alma, abrindo-se para dentro dessa noite cósmica que era psique muito antes de existir qualquer consciência do ego, e que permanecerá psique até onde quer que a nossa consciência do ego possa entender. Pois toda a consciência do ego está isolada: ela separa e discrimina, conhece apenas pormenores, e vê apenas o que possa estar relacionado ao ego. Sua essência é a limitação, embora alcance a nebulosa mais distante entre as estrelas. Toda consciência separa; mas, nos sonhos, assumimos a aparência daquele ser humano mais universal, mais verdadeiro e mais eterno, que vive na escuridão da noite primordial. Lá, ele ainda é o todo, e o todo está nele, indistinguível da natureza e despido de toda condição de ego. É dessas profundezas que a tudo unificam que surge o sonho, seja infantil, grotesco e imoral. Em sua transparência e veracidade ele se assemelha a uma flor que nos faz enrubescer diante da insinceridade de nossas vidas.”





A citação acima está no livro A Imagem Mítica, de Joseph Campbell (Papirus, 1994). É uma passagem de C.G. Jung – “The meaning of psychology for modern man", Civilization in transition, conforme consta na nota da obra de Campbell.

O célebre estudioso apresenta várias imagens e discorre, com sua vertiginosa – mas acessível – erudição, sobre alusões simbólicas que buscam entender e explicar (compreender) a existência humana e seu(s) mundo(s). Nesta primeira parte, a análise está centrada numa imagem, “Vishnu Sonhando o Universo” [ilustração desta postagem], que tenta traduzir em sítese o fundamento da cosmovisão hindu: “A idéia que se tem do universo, de seus céus, de infernos e de tudo o que nele existe, como se fosse um grande sonho sonhado por um único ser e no qual todas as personagens oníricas também estão sonhando, encantou e deu forma a uma civilização inteira na Índia”, diz Campbell.

Ao especular sobre “quem sonha, quem é sonhado”, Campbell pergunta:

“Somos, você e eu, do modo como nos conhecemos, reflexo de algum mistério solene? E, se somos, estará esse mistério adequadamente representado em nossa imaginação de ‘Deus’?”




***Naquelas “coinsciências”, no mesmo momento que estou lendo citações de Jung no livro de Campbell, estou, sem planejamento, escutando canções do The Police, de seu disco Synchronicity (1983). Canções que muitos escutamos nos anos 80 e que permanecem com um “patrimônio” comum de velhos amigos de infância e adolescência. E com várias referência a Jung – estímulo para lermos suas obras ou coisas relacionadas ao seu pensamento, e que Sting usou para compor canções deste disco.

Abaixo, a letra da canção que abre o “LP”:



Synchronicity I

With one breath, with one flow
You will know
Synchronicity

A sleep trance, a dream dance,
A shared romance,
Synchronicity

A connecting principle,
Linked to the invisible
Almost imperceptible
Something inexpressible.
Science insusceptible
Logic so inflexible
Causally connectable
Yet nothing is invincible

If we share this nightmare
Then we can dream
Spiritus mundi

If you act, as you think,
The missing link,
Synchronicity

We know you, they know me
Extrasensory
Synchronicity

A star fall, a phone call,
It joins all,
Synchronicity

It's so deep, it's so wide
Your inside
Synchronicity

Effect without a cause
Sub-atomic laws, scientific pause
Synchronicity...

20 de set de 2009

Sobre arte e poesia - o sábio Campbell




No riquíssimo livro de Joseph Campbell – com o jornalista Bill Moyers – , O poder do mito (Palas Athena, 1990) há, entre tantas passagens por demais interessantes (e muitas comoventes), há uma sequência que fala da arte e, destaco, da poesia:

[...] Nos Upanixades há uma imagem da energia original, concentrada, responsável pela grande explosão da criação que produziu o mundo, destinando todas as coisas à fragmentação temporal. Mas ver, através dos fragmentos do tempo, o poder total do ser original – essa é a função da arte.

[...] A beleza é uma expressão daquele arrebatamento de estar vivo.

[...] Cada momento deveria ser uma experiência como essa.

[...] O que vai ser de nós amanhã não é importante comparado com tal experiência.

[...] O que estamos tentando fazer [nesta conversa sobre os mitos e a vida], de certo modo, é apreender a essência do nosso assunto através dos meios parciais de que dispomos para expressá-los.

[...] Mas se não podemos descrever Deus [palavra muito problemática para denominar O Grande Mistério ou A Divindade], se nossa linguagem não é adequada, como é que erguemos construções sublimes? Como criamos essas obras de arte, que refletem o que os artistas pensam de Deus? Como fazemos isso?

[...] Ora, é o que a arte reflete – o que os artistas [que Campbell considera os “modernos” construtores de imagens mitológicas] pensam [disso que chamamos] de Deus, a experiência de Deus que têm as pessoas. Mas o mistério último, imponderável, está além da experiência humana.

[...] Portanto, o que quer que experimentemos, temos de expressar em uma linguagem que não é apropriada à situação.

[...] Eis a função da poesia. Ela é uma linguagem que deve ser assimilada aos poucos, cuidadosamente. A poesia envolve uma escolha precisa de palavras, cujas implicações e sugestões ultrapassam as próprias palavras. Graças a isso, você experimenta o esplendor, a epifania, que é uma aparição da essência [das coisas].

[...] Portanto, a experiência de Deus [da Divindade] está além do que podemos descrever, mas nos sentimos compelidos a tentar descrevê-la [...].

*Para quem quer dar uma olhada em outras passagens, tem este link:

http://www.culturabrasil.pro.br/campbell.htm

A citação inicial:

“Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos.”
E para ver no YouTube a entrevista (legendada em português), eis o link da primeira parte (de seis):

13 de set de 2009

Breve baianada


Na onda das viagens, vai aí uma fotinho da última empreitada na Bahia. Fiquei duas semanas desta vez, no final do mês passado (agosto), em Cruz das Almas, e um pouco em Salvador, num curso de pós com módulos na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB.


Como disse o Agladis, é muito interessante as semelhanças entre cidades como, por exemplo, Rio Pardo, Rio Grande, no RS, e Salvador, BA. Atestado do sucesso lusitano em efetivar a sua dominação num país imenso como o Brasil - sem contar em vários e muitos outros cantos do mundo, até na Ásia (Goa e Macal, pra citar os principais, talvez). Andar em Cachoeira e São Félix (cerca de 140km de Salvador, e bem próximo de Cruz das Almas), que se estendem ao longo do famoso Rio Paraguaçu, é uma experiência fantástica - em especial pra nós brancos sul-brasileiros. Ao mesmo tempo que se está no Brasil, parece outro mundo: moreno, mestiço, sinuoso, "barroco", impregnado de religiosidade e sensualidade ao mesmo tempo. Lá conheci um terreiro de Candomblé e até um bênção com pipoca "purificadora" recebemos da babalorixá.


Dizem que essa região é o berço do Brasil pela extração do Pau Brasil e depois pela agricultura - cana, café, fumo etc. - começa uma "viabilidade econômica" para a colônia portuguesa na América. E também berço das religiões de matriz afro e afro-indígena-católica. Outro "berço" é o dos charutos e do cultivo e beneficiamento de tabaco para charutos, que se tornaram mundialmente famosos por sua qualidade.


Também aproveitei a estada na Nahia para experimentar o que fosse possível da alimentação "típica". Fiquei até meio enfarado dos temperos. Overdose de azeite de dendê, leite de coco, macacheira (TUDO leva mandioca - sem trocadilhos!)... Comi acarajé, mugunzá, vatapá, abará, caruru, muqueca, xinxim, tapioca, beiju, bobó, maniçoba, pamonha... Sucos de umbu, cajá, cacau, graviola (licores dessas coisas) e até o intragável suco de milho verde... Tomei um fartão, como se diz! Mas a cocada escura cozida de sobremesa é algo espiritual - pode levar a pessoa a um êxtase, a uma epifania, a visões da Virgem Maria Imaculada e mesmo do Nosso Senhor Jesus Cristo ao lado do Pai de Todos!!! Comi isso num restaurante instalado num antigo convento... Que pecado, tchê!


Minha "tendência vegetariana" não me impede de provar qualquer alimento, caso eu sinta vontade. Não quero ser sectário. Apenas evitar comer carne, porque é uma coisa meio feia e o sofrimento do animal - que considero seres ao par dos humanos - é muito explícito, ainda mais quando é um mamífero, tipo vaca, porco, coelho etc. Mesmo assim, como os pobrezinhos... (Contei que fui em fevereiro a Argentina, Misiones, num intercâmbio visitar aldeias de índios guarani por lá e comi carne de gado e aipim direto! Não havia muita opção, claro, e em momentos assim, de conhecimento e busca de contatos, quero compartilhar o máximo possível, incluindo as refeições.)


Também cada vez mais tenho menos restrições a "misturas". Aqui entre a "alemoada" não é incomum misturas coisas como cuca de abacaxi (doce) com feijão e batata frita no mesmo prato.


Lá em Cruz estava até um pouco frio. Outra coisa que não esperava da Bahia - além de uma Salvador megalópole, tão cheia de coisas quanto São Paulo ou Porto Alegre (nada ver com aquilo - imagem estereotipada e preconceituosoa - de todo mundo em uma rede na beira da praia tomando água de côco). Um frio úmido. É uma região com bastante verde, rios e lagos. E é época de "inverno", que significa "chuvas".


E o sotaque? É um elemento da voz, mas na verdade tudo tem um sotaque diferente - no andar das pessoas, no jeito de olhar, no jeito de sentir e pensar, conjecturo. É uma formação em outro universo cultural, com outra cosmologia, que diferencia em sutilezas e dá nesta diversidade tão bacana.


Cruz das Almas tem vários paralelos com Santa Cruz do Sul (além da palavra "Cruz"): são duas zonas de plantio de fumo históricas e de grande importância sócio-econômica - só que por lá, como falei, fazem charutos, e aqui o tabaco é pra cigarro. Em ambas cidades, o domínio econômico industrial, porém, é por estrangeiros. Ligam-se também pela presença de imigrantes germânicos. Mas, até onde pude saber - e parece haver poucos estudos sobre isso pelo que apurei com colegas e numas visitas, lá os "alemães" (entre outros) vieram já com idéias e capital para montar indústrias ligadas ao tabaco, e que ficaram famosas, como Dannemann e Suerdieck.

5 de set de 2009

Álcool



O álcool talvez seja a droga mais antiga e popular do nosso planeta – na forma de fermentados e destilados, feitos a partir de cereais, frutas e outros vegetais. Índios da América do Sul usavam (e ainda usam) a mandioca numa fermentação desencadeada pela saliva das jovens nativas; egípcios do norte da África apreciavam já em prototípicos pubs um ancestral chope, que, depois de muitas voltas, passou a ser a bebida-símbolo dos alemães, em especial através da difusão dada pela Oktoberfest no começo do século XIX em Munique.

Cachaça, uísque, vinhos, conhaques, cervejas, misturas diversas, formulações várias – sempre tendo o álcool potável como o seu agente psicoativo-mor. E as sensações podem ser tão “boas”, tão agradáveis, que o indivíduo começa a ingeri-lo compulsivamente – criando-se, muitas e muitas vezes, uma terrível dependência química, não raro com um final em cruenta tragédia.
Particularmente, não é o álcool, e, sim, o café a minha droga diária, onde busco o sabor peculiar e o efeito estimulante. A cafeína dinamiza a atenção e o intelecto, digamos assim. O álcool, para mim, tem sido um relaxador leve, descontraindo-me, sem que eu chegue a algum “êxtase” – nem caia num torpor mórbido ou euforia incontrolável.

E esse efeito relaxante e desinibidor – permitindo ao sujeito manifestações de suas vontades, pensamentos e índoles represadas – é, no meu entender, o motivo principal da generalização do uso do álcool – tornando-o a droga mais “pop” em todos os continentes, em todas as idades e em todas as classes sociais.

Numa sociedade onde a moldagem, via o processo de socialização, leva a auto-repressão (e sem isso não há civilização ou similares grupos humanos estáveis), que se interioriza no indivíduo como uma composição de sua personalidade, o álcool é a “válvula de escape” – para o indivíduo e para a comunidade. Assim, torna-se uma “droga constitutiva”, inerente, “necessária” a nossa vida social/sociedade – assim como estão se tornando os fármacos antidepressivos e, mesmo, a maconha, que se ressente da repressão e preconceito gerado pela ilegalidade do seu comércio.

Já o álcool, propalado em anúncios televisivos muito bem elaborados – tendo como “garotos” e “garotas-propagandas” estrelas da mídia nacional –, perversamente associa-se apenas a prazeres: alegria, bem-estar, amizades, beleza, sexo, sucesso com mulheres/homens, etc. Evita-se a os incontáveis infortúnios diretos e indiretos derivados do seu consumo contumaz ou sem observâncias de cuidados fundamentais, como não dirigir após a ingestão.

Concluo que, sendo o álcool (entre outras drogas), como afirmei, constitutivo do nosso tipo de organização coletiva, o “combate” (palavra muito inadequada) deve ser pensado para além da repressão. O caminho me parece ser – e com o temor de soar demasiado utópico –, em primeiro lugar, pela abertura de espaços lúdicos e outros que possibilitem a expressividade de outras facetas do ser humano, assim como uma educação pautada na libertação das potencialidades humanas e responsabilidade pessoal e grupal. Em segundo lugar, o desestímulo ao consumo, banindo a propaganda massiva, caso da em canais abertos de TV. Em terceiro lugar, ampliando e aprimorando uma regulamentação do consumo, evitando o abuso e uso precoce dessas substâncias, como já dispõe o Estatuto da Criança e do Adolescente.

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*Li uma matéria que saiu na site Rolling Stone brasileira sobre a cantora Amy Winehouse. Anotei a seguinte conceitualização que ela deu pra duas drogas nossas conhecidas: “A mentalidade por trás da maconha tem a ver com o hip-hop, e quando fiz meu primeiro álbum eu só ouvia hip-hop e jazz. A mentalidade da maconha é muito defensiva, tem um clima de ‘foda-se, você não me conhece’. Enquanto a idéia por trás do álcool tem muito mais a ver com ‘oi, sou eu. Ah, eu te amo, vou deitar no meio da rua por você. Não estou nem aí se você nunca olhar para mim, eu sempre vou te amar’.”

**Uso cerimonial de fermentados alcoólicos pelos índios (noutro momento, já mencionei o tabaco, outra planta que pode ser arrolada na etnobotânica americana, descoberta, cultivada, beneficiada – secagem das folhas, manufatura de “charutos”, desenvolvimento de cachimbos e outros meios de uso – por povos “pré-colombianos”, de uso cerimonial e medicinal, apropriada pelos europeus e transformada em mercadoria e produto de uso vulgar, generalizado e compulsivo):

Na obra do genial folclorista Luis da Camara Cascudo, História da Alimentação no Brasil, documento dos mais vastos e interessantes sobre a cultura, história e sociedade brasileiras, há um capítulo (p. 143) tratando das bebidas usadas em rituais festivos pelos índios brasileiros. Cascudo cita o alemão Hans Staden, que conviveu com nativos por volta de 1554:

“As mulheres é que fazem também as bebidas. Tomam as raízes de mandioca, que deitam a ferver em grandes potes, e quando bem fervidas, tiram-nas e passam para outras vasilhas ou potes, onde deixam esfriar um pouco. Então as moças assentam-se ao pé a mastigarem as raízes, e o que fica mastigado é posto numa vasilha à parte. Uma vez mastigadas todas essas raízes fervidas, tornam a pôr a massa mascada nos potes que então enchem de d’água e misturam muito bem, deixando tudo ferver de novo. Há então umas vasilhas especiais, que estão enterradas até o meio e que eles empregam, como nós os tonéis para o vinho e cerveja. Aí despejam tudo re tampam bem; começa a bebida a fermentar e torna-se forte. Assim fica durante dois dias, depois de que, bebem e ficam bêbados [tal expressão talvez não seja a mais adequada, devida a sua carga pejorativa]. É densa e deve ser nutritiva.”

Além da mandioca, também se usava o milho e outras plantas e partes de vegetais, como ananás e raízes de certa pimenteira, todas obedecendo ao processo básico – usado por diversos grupos aborígenes do mundo todo, do Peru à Austrália – de desencadear a fermentação do produto pela mastigação: “Na diástase da saliva a ptialina transforma o amidos das raízes e dos frutos em maltose e dextrina, provocando a sacarificação, resultante dos ácidos orgânicos sobre os açúcares.”

A repugnância e paulatino desuso do processo de fabricação dessas bebidas pela mastigação. Cascudo acredita “que à nossa vã filosofia ‘científica’ escapam razões milenares e secretas de certos atos da [assim chamada] vida primitiva. E mesmo da vida popular contemporânea. (...) A saliva está neste plano, mágico, histórico, universal no espaço e no tempo.”

Outra observação fundamental de Cascudo: “Beber por desfastio, divertimento, desejo íntimo, não existia e quase não existe entre os aborígenes. Indígena isolado, bêbado, é contágio de ‘branco’. Bebida é sempre função grupal, solenidade com motivação indispensável.”

As “caiuagens” [consumo coletivo do fermentado] não era algo do dia-a-dia, mas fazia parte da rotina social dos grupos. A bebida “era cerimônia especial e distinta”. Durante esse período, os indígenas abstinham-se de alimentos. Nas refeições cotidianas, quando se sente necessidade, bebe-se água pura, diz Cascudo.

Cascudo, ainda neste capítulo, fala do caápi, um cipó – ou melhor, a “infusão da casca previamente socada num pilão especial, mal diluída em um pouco de água” – que “produz um sumo amargo, servido depois das amplas bebidas coletivas, promovendo sonhos, excitações, semidelírios, no alto do rio Negro e mais freqüentemente no Uaupés. (...) O uso do caápi parece ter sido influência incaica, onde dizem ayauasca e lluasca.”
*** Na foto (divulgação), mastigação de Cauim de milho (Mitähi) por índia arawete.

8 de ago de 2009

A ira de John



Muito bonito esse livro do John Steinbeck (foto ao lado do autor), As vinhas da ira, originalmente publicado em 1939 (70 anos em 2009, então!). Demorei a começar lê-lo. Mas descubro um “tratado” sobre a história sócio-econômica, a mecanização do campo – chegada dos tratores –, o endividamento, a usurpação dos bancos e o domínio satânico das companhias anônimas, às quais não se tem a quem recorrer e cai-se numa impotência diabólica; um “monstro”, como é dito no próprio romance. Monstro, figura perfeita para denominar a perversão dos humanos a um “ser” sem travas, onipotente, onipresente, com aquele tal de “dom da ubiqüidade”, em frieza mortal e humilhadora.

Tenho falado isso sobre as companhias telefônicas, por exemplo. A quem se reclama mesmo? Os atendentes são pobres coitados, escravizados numa terceirização da terceirização, respondendo feitos robôs pseudo-impassíveis – fico imaginando quantas doenças acumulam em seus corpos-mentes diante de tanta indignação que devem receber na cara sem reação, contendo todos os seus impulsos (são [mal] pagos pra serem escarrados, evidentemente – uma forma de diminuir a nossa revolta através de bodes expiatórios lamentáveis). Enquanto isso, os grandes executivos destas companhias anônimas e os grandes acionistas destes demônios burocráticos criados por humanos – e que agora se tornaram uma plêiade totalitariamente dominando a existência de todo o mundo – usufruem de um bom quinhão – a milenar recompensa dos traidores e devotos prediletos e esforçados dos –, com seus jatos e iates particulares, enquanto a massa de palhaços torturados tenta achar graça do espetáculo a que estão submetidos em semi-consciência.

Alguns de nós, palhaços serviçais, são baba-ovos e movemo-nos na esperança de um dia “chegar lá”, ou seja, ter sua alma comprada, prostituindo-se infamemente, mas sentindo aquela satisfação dada pelo poder, pelo “ser admirado” - uma droga das mais embriagadoras e auto-destrutivas (provas não faltam).

Salve John Steinbeck e todos que abrem frestas no cu da besta e, de forma profunda e sensível, apresentam a imbecilidade dos que se acham desfrutadores do culto ao belzebu capitalista! Se houver alguma justiça transcendental, que ela seja condizente com a quantidade de dor que esses filhos do perverso estão em íntima colaboração.

(continua)
Agora faltam poucas páginas para terminar (24/10/2009). Tenho lido aos poucos. Em intervalos, para trocar de tema e não me cansar, faço outras leituras, como foi o caso do livro do Saul Bellow, Agarre a Vida - além de revistas, jornais, essas coisas.
O que me tem vindo à mente é o paralelo que se pode fazer entre o movimento dos sem-terra no Brasil e a história destes agricultores norte-americanos que migram em massa para a Califórnia nos anos de 1930/40. (Há aí uma ligação entre os romances As Vinhas da Ira e Quem faz Gemer a Terra, de Charles Kiefer, ou seja, entre agricultores sul-brasileiros e norte-americanos).
Esta massa é ao mesmo tempo necessária para a colheita nas gigantescas plantações de frutas e algodão, e uma "ameaça" a propriedade e a "ordem estabelecida", causando medo nos proprietários, empresários rurais e na população local - que se vê "invadida" e com seus empregos em risco. Logo forja-se o preconceito e o apelido "okie" - que designava alguém que vinha da região de Oklahoma - passa a designar todos os "forasteiros", associando a seres invasores, pérfidos, sub-humanos, bandidos e até vagabundos - embora busquem desesperadamente trabalho e tenham passado suas vidas trabalhando em suas terras, que no processo de mecanização, endividamentos, apropriação por bancos e transformação da agricultura em "agrobusiness" nesta fase do capitalismo, se vem enredados, encurralados, forçado até por forças policiais, a migrarem com seus poucos pertences sobrantes, atraídos pela propaganda de fartura na Califórnia. Mas lá passam o cachorro, humilhações, fome, agressões de todos os tipos; a super-exploração - e toda tentativa de organização dos trabalhadores, mesmo que incipiente e pouco consciente, é tratado com agressividade máxima; "os vermelhos" são caçados feito cães contaminados... Nada muito diferente do que ainda vemos aqui...
Steinbeck recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1962. Sensibilidade aguçada e vivência lhe deram esta perspectiva crítica, retratando as agruras desses despossuídos, mostrando a injustiça social - marca de sua literatura engajada. Suas obras são um caminho para a sensibilização e abertura do leitor à compreensão de fenômenos sociais, de relações humanas, de estruturação da sociedade, rompendo com visões amesquinhadas, medíocres e, consequentemente, reacionárias, favoráveis a escravidão da esmagadora maioria em favor de uma minoria que se sustenta no poder e no desfrute de uma abundância - que deveria escandalizar e produzir uma revolta coletiva, evitada pelos mecanismos ideológicos do conformismos, como a maioria das escolas (pedagogia) e igrejas (teologia).
Entretanto, apesar de obras como esta de Steinbeck, escritas há 70 anos, há gente inteligente que concebe os sem-terras como semi-animais pestilentos... Não raro, são tão pobres ou somente remediados, mas adotam o discurso reacionário que ali adiante os fere; chibatam suas próprias costas e livram uma elite de se defrontarem com sua vileza quase sempre também subconscientes, represada por ideologias que lhes aliviam, embasam e justificam privilégios tão elevados.
O livro é cheio de possibilidades de análise, contemplação e regojizo. Um antropólogo poderia gostar da análise que ele faz da organização das famílias, das comunidades rurais e depois as comunidades dos acampados; um sociólogo e historiador, toda o desenvolvimento do capitalismo americano nos anos de 1930/40. Um geógrafo, as regiões dos EUA, a economia, a agricultura, o automóvel, o caminhão, o trator "tomado conta"...
(continua)

18 de jul de 2009

Pegadas humanas na Lua - 40 anos atrás


Dia 20 de julho completa-se 40 anos da chegada de seres humanos à Lua – foi um dos rounds da “batalha espacial” vencido pelos EUA em 1969, após muitas vitórias dos russos, que inclui o lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik (1957), e o primeiro homem no espaço, Yuri Gagarin* (1961).

O astronauta Neil Armstrong (foto ao lado) foi o primeiro a pisar em solo lunar. Ele teria dito algo emblemático: “Um pequeno passo para um homem, mas um grande para a humanidade”. Gagarin, bem menos poético, teria cunhado aquela "A Terra é azul, mas não vi Deus por aqui"...

Até hoje há quem duvide do feito de Armstrong e todo o seu time - "a viagem mais fantástica na história da Humanidade" iniciada na manhã de 16 de julho de 1969. De qualquer modo, o mega-esforço científico-tecnológico (além de grana muito do grossa no que se considera "o maior projeto de engenharia da história: o projeto Apollo") implicado nas viagens espaciais acarretou uma série de aperfeiçoamentos na área da comunicação, informática, mecânica, logística, medicina, química etc. Mesmo no campo do pensamento humano - afora todas as implicações políticas, econômicas, sociais e culturais -, a saída de humanos do seu planeta e a chegada até a Lua significou algo tão radical como o a “descoberta” do continente americano por parte dos europeus no século XVI. A história dos mamíferos bípedes sofreu um deslocamento e uma nova fronteira - física e psicológica - foi atingida. Começou a ser possível sobreviver – por meio de artifícios vários – fora do pequeno planeta que gerou e possibilita nossa existência...


*Yuri Gagarin tornou-se uma celebridade da noite para o dia (ou vice-versa!). De tenente, subiu, ainda no espaço, para a patente de major da força aérea russa. Viajou o mundo todo como garoto-propaganda do regime soviético - de seu sucesso retubante até no campo da tecnologia aeroespacial. Mas Yuri, meu chará - e é justo por ele que tenho este nome -, parece não ter suportado muito bem o "peso da fama". Bebia em demasia e foi pego em escandaloso flagrante com outra mulher que não a sua esposa... Em um treinamente de rotina, seu avião espatifou-se, morrendo ele e o co-piloto. Até hoje, mistérios rondam esse acontecimento. Há hipóteses as mais mirabolantes, caso de uma "vingança" de ETs" pela "invasão do espaço" pelos comunas... Mas não deixa de ser plausível a hipótese de que "eliminaram" Gagarin. Uma celibridade patriótica fora do controle dos manda-chuvas é um perigo à "segurança nacional". E na URSS não foi nada incomum esse tipo de procedimento paranóico do totalitarismo, todos sendo tragados pela desconfiança permanente e mútua...

**Algumas citações foram retiradas do texto muito bom e sintético (mas com algumas falhas de digitação e já relativamente passado - é de 2001) "O homem na Lua", de Audo Loup, publicado na internet pelo Centro de Divulgação Científica e Cultural da Universidade de São Paulo, http://www.cdcc.usp.br/cda/sessao-astronomia/seculoxx/textos/o-homem-na-lua.htm

13 de jul de 2009

O vinho da separação


Longe de mim o antissemtismo, essa ideologia perversa, como são todos os racismos, que tantas coisas ruins já geraram para a humanidade até hoje. Mas justamente dentro da religiosidade judaica – vinculada diretamente a uma etnia que sofreu bárbaras perseguições (o holocausto na 2ª Guerra Mundial é o exemplo maior) – existem elementos que me parecem muito absurdos, tal o nível de refinamento do sectarismo contido.

É o caso da alimentação. Também nada tenho contra restrições e tabus alimentares, que todo mundo tem, mesmo sem se dar conta (quem é que come carne de cachorro ou rato por aqui?). Mas dentro da “dietética kosher”, seguida por judeus ortodoxos, vai-se ao paroxismo do “purismo”, podendo engendrar desconfianças e “justificar” preconceitos – está ali claramente definida a “contaminação por gentis”, ou seja: Os não-judeus, de maneira alguma, podem tocar nos alimentos durante o seu manuseio e manufatura.

Estas reflexões me vieram ao ler a coluna sobre gastronomia de Bete Duarte, em Zero Hora, de 1º de maio de 2009. Ali, chamou-me a atenção uma nota sobre o lançamento de um “vinho kosher”, bebida que segue “as mais rígidas regras judaicas”, contando com “supervisão de rabino” e coordenação de um outro religioso, ligado à “BDK Brasil, órgão judaico de fiscalização de alimentos”.

A rigidez das “leis da cashrut” é excludente ao extremo: “O vinho kosher deve ser feito somente por judeus praticantes. Além disso, há a fiscalização durante todo o período até o engarrafamento para que ninguém que não seja judeu praticante toque o vinho”, destaca Duarte, sem que ela pareça perceber o ponto da discriminação radical embutida no processo, tratando mais como se isso fosse “apenas” uma qualidade gastronômica, similar às necessidades para se chegar ao fígado de ganso com o qual se faz o famoso patê foie gras – aliás, um requinte da coleção de crueldades bizarras contra animais não-humanos a serviço de paladares de animais humanos...

O objetivo da alimentação kosher não é necessariamente discriminar. Até onde entendo, quer que os devotos sigam preceitos bíblicos ou do Torá, vivendo santa e saudavelmente. Tudo bem. Mas acho que nesta busca, neste “zelo”, cai-se, inapelável, em discriminações, cisões, apartamentos, distinções e inviabilização de convívios.

Fazendo paralelos e parodiando o título do famoso romance de John Steinbeck – As Vinhas da Ira –, não vejo com bons olhos algo que pode vir a ser “O Vinho da Ira”.

29 de jun de 2009

Em que consiste exatamente a “realidade”?



Estou terminando de ler um livro – Perspectivas sociológicas – de um sociólogo americano chamado Peter Berger. A edição original em inglês saiu em 1963. A editora Vozes botou uma tradução no Brasil, que já está na 18ª edição. Isso para dizer que o livro já é quarentão e foi muito demandado.

Escrito como uma espécie de introdução geral à matéria, não caiu na estrutura indigesta de manuaisões “didáticos” que conheci no tempo da Puc e Ufrgs. Berger é um erudito, conhece em detalhes a sociologia, em especial a americana (ele foi professor na famosa New School for Social Research) e o mundo do seu tempo. Mas escreve sem pedantismo (embora não abrindo mão de uma certa sofisticação na linguagem), sem querer parecer um gênio, com um humor crítico, irônico, mordaz, muito estimulante. É um livro sério sem perder a graça! Pretende ir além de securas sociológicas e hipercientificismo mecânico, penetrando em campos, digamos assim, mais férteis a uma compreensão/cosmovisão/ação humana libertária.

No prefácio ele diz assim (na primeira linha!): “Este livro foi escrito para ser lido, e não para ser estudado.” Noooooosa!!!

Selecionei umas partes que queria mandar pra vocês. Tem a ver com os debates aqui sobre submissão e transcendência dos humanos em sociedade, ou seja, até que ponto conseguimos nos libertar dos “papéis” que desempenhamos no “teatro” que fomos introduzidos paulatinamente, desde a barriga de nossas mães...

Não sei se vou ter paciência para digitá-las todas. E nem sei se alguém aqui da lista tem de fato algum interesse e saco para lê-las!!! Enfim...

Vou pelo menos mandar um trecho, que está mais para o final do livro, num capítulo que tem o subtítulo indicador “A sociedade como drama”. Berger, a esta altura, começa a “puxar da manga” caras como o filósofo francês Sartre e o escritor russo Tolstoi. Vai aí:

Suponhamos um homem que desperte de noite, de um desses pesadelos em que se perde todo o senso de identidade e localização. Mesmo no momento de despertar, a realidade do próprio ser e do próprio mundo parece uma fantasmagoria onírica que poderia desaparecer ou metamorfosear-se em um piscar de olho. A pessoa jaz na cama numa espécie de paralisia metafísica, tendo consciência de si, mas um passo além daquele aniquilamento que avultara sobre ela no pesadelo recém-findo. Durante alguns momentos de consciência dolorosamente clara, pode quase sentir o cheiro da lenta aproximação da morte e, com ela, o nada. E então estende a mão para pegar um cigarro e, como se diz, “volta-se à realidade”. A pessoa se lembra de seu nome, endereço e ocupação, bem como dos planos para o dia seguinte. Caminha pela casa, cheia de provas do passado e da presente identidade. Escuta os ruídos da cidade. Talvez desperte a mulher e as crianças, reconfortando-se com seus irritados protestos. Logo acha graça da tolice, vai à geladeira ou ao barzinho da sala, e volta a dormir resolvido a sonhar com a próxima promoção.

Até aí, muito bem. Entretanto, em que consiste exatamente a “realidade” a que o homem acabou de voltar? É a “realidade” do seu mundo socialmente construído, aquele “mundo aprovado” em que as perguntas metafísicas são sempre risíveis, a menos que tenham sido capturadas e castradas em ritualismo religioso aceito sem discussão. A verdade é que esta “realidade” é, com efeito, muito precária. Nomes, endereços, ocupações e mulheres desaparecem. Todos os planos terminam em extinção. Todas as casas por fim se esvaziam. E mesmo que vivermos todas nossas vidas sem termos de enfrentar a torturante contingência de tudo quanto somos e fazemos, por fim temos de voltar àquele momento de pesadelo em que nos sentimos despojados de todos os nomes e de todas as identidades. Ademais, sabemos disso – o que nos conduz à inautenticidade de correr em busca de abrigo. A sociedade nos oferece nomes para nos proteger do nada.

Constrói um mundo para vivermos e assim nos protege do caos em que estamos ilhados.
Oferece-nos uma linguagem e significados que tornam esse mundo verossímil. E proporciona um coro firme de vozes que confirmam nossa crença e calam nossas dúvidas latentes.

*Escrito em 2005.

**Berger está falando sobre a possibilidade – “a liberdade a que estamos condenados”, conforme as palavras de Sartre – de executarmos ou não certos papéis ou atos socialmente estabelecidos.

***O autor diz que, em contraponto a uma existência humana inautêntica, “Existir autenticamente consiste em viver em plena consciência da natureza singular, insubstituível e incomparável da personalidade”.

20 de jun de 2009

Árvores, seres inteligentes

Não é a primeira vez que faço comentários sobre a comunicação entre seres de espécies diferentes que habitam a Terra. O assunto ressurgiu quando li uma matéria no caderno Ambiente do jornal Zero Hora, de 28 de maio de 2009. Ali se menciona o quanto poderia ser benéfico o “conversar com as plantas e os animais”. O exemplo disso é o que aconteceu com a médica aposentada, Cândida Otero, 86 anos, que, através do contato íntimo com seres da natureza – e nós humanos somos seres da natureza –, possibilitou-lhe superar a dor de perda de familiares, que a fez chegar nos 34 quilos, tal a depressão em que mergulhou.

Destaque na matéria para a canadense Dorothy Maclean, 88 anos, uma das fundadoras da famosa eco-comunidade Findhorn, no norte da Escócia. Ela lançou no Brasil, no ano passado, o livro O Chamado das Árvores. “Uma legião de seres vivos, compassivos, dotados de inteligência especial”, define ela.

Dorothy é uma ecologista que transcende a “pura” biologia e a política mais dura, entrando no campo da espiritualidade ou religião. Diz que “Somos todos um. Não apenas uma família de seres humanos, mas uma família de seres do planeta. E a vida é essencialmente divina.”

E sobre o contato com esses seres tão antigos, as árvores, que habitam fisicamente o nosso planeta muito antes dos humanos? Será que todos seriam capazes de entender “o chamado”? Como ouvi-las? Na entrevista pra revista Claudia (Editora Abril, novembro de 2008), Dorothy diz que “a conexão vem quando somos amorosos e pacientes e reconhecemos sua inteligência”. A dica é: “Na presença delas, mantenha a mente receptiva, faça uma conexão com Deus – ou com a força de vida que está em todas as coisas. Concentre-se nessa sabedoria, e a comunicação será possível”.

Mas não é de uma hora para outra. Conta que, com ela “isso começou a acontecer depois de uns dez anos de prática meditativa, de sintonia com a minha divindade interior. Não ouço vozes nem tenho visões, é como se fosse uma idéia que me chega inteira, vinda do reino vegetal. Uma espécie de telepatia. Aí, tento traduzir esse insight em palavras fazendo anotações em um caderno de bolso”.

Com todas as espécies de seres – até bem além dos terráqueos – deve ser assim, me parece. Não bastarão antenas, telescópios, sondas para o “contato”. Ficções como os de filmes clássicos, Contatos Imediatos de Terceiro Grau, de Steave Spielberg, por exemplo, também podem ser um reforço a ilusões – de que haveria algo palpável, algum aparato tecnológico, físico, material, enfim, mediado a comunicação entre humanos e... bem... humanóides – que é o “formato” que mais podemos imaginar enquanto ser inteligente (por isso a profusão de greys e assemelhados), tal nosso limitante e limitador antropocentrismo (o ser humano como centro, razão e parâmetro para tudo). Desconfio que será preciso muito mais é um coração compassivo, uma mente livre e uma grande abertura para todas as possibilidades de comunhão com as coisas da Vida, do Universo, do Infinito.


*O chamado das Árvores, 2008, Irdin Editora. Sinopse: “Aprendemos que as árvores não são apenas as guardiãs, mas também a pele da Terra. A natureza não é uma força cega e rude, mas uma presença inteligente, que pode e deseja comunicar-se e cooperar com uma humanidade desperta.” FONTE: http://www.livrariacultura.com.br

**“Na década de 60, a educadora Dorothy Maclean e seus amigos Eillen e Peter Caddy já meditavam e mantinham uma forte conexão com uma espécie de divindade interior. Guiados por ela, os três deixaram seus empregos formais e viajaram a bordo de um trailler até o meio de uma área desértica, no norte da Escócia. O solo era árido, mas eles tinham como missão ficar ali e fazer um jardim. Trouxeram as plantas e se puseram a trabalhar na terra. Em pouco tempo, a área estava coberta de vegetação, flores e frutos. Assim nasceu a comunidade de Findhorn, a ecovila mais antiga do mundo, fundada há quase 50 anos. Hoje, é um centro de estudos de projetos de sustentabilidade e de práticas espirituais, pois, segundo os idealizadores, essas seriam duas faces indissociáveis da manutenção da vida.” FONTE: http://holosgia.blogspot.com/

***Na mesma matéria de Zero Hora, fala-se da veterinária Sheila Waligora, “comunicadora entre espécie”. Ela diz usar técnicas telepáticas. “A fala para eles [cães, gatos e outros animais não-humanos] é apenas um ruído, eles compreendem a nossa intenção.”

No blog da veterinária – : http://sheilawal.wordpress.com/ –, destaquei a seguinte parte do texto “De quem é a Terra?”:

A Terra, verdadeiramente, é dos animais, das plantas, dos minerais [...]…
Nós humanos somos seres visitantes e nossa passagem por aqui é muito breve. Ainda mais por isso, nosso respeito pela natureza e seus seres precisa ser imenso, assim como nossa gratidão por podermos compartilhar de tanta beleza.

Neste contexto e com essa visão, pensamos em propor às pessoas, que experimentem se comunicar com uma flor, com um inseto, com uma linda árvore e com os animais.

Vestidos com amor e respeito, com reverência, cumprimentamos os seres da natureza e nos colocamos ali, com o coração e os ouvidos muito abertos, para receber aquilo que eles querem nos transmitir. Ao silenciarmos, com essa atitude interna, estamos criando o ambiente perfeito, para recebermos uma mensagem que pode transformar nossas vidas.

A comunicação telepática com outras espécies é uma comunicação expandida, quando abrimos ainda mais todos os nossos sentidos, para nos capacitarmos a ouvir mensagens inesperadas, que podem transformar nossa atitude em relação a animais, plantas e à natureza em geral.



Pode transformar também nossa maneira de viver, pois vamos começar a prestar mais atenção aos nossos hábitos, vamos ficar mais conscientes em relação aos nossos pensamentos, vamos cuidar mais dos nossos relacionamentos entre humanos e , quem sabe, vamos até resolver criar um momento diário para silenciar e fazer absolutamente nada?

Da polenta e da cuca – uma pureza que não existe



Dias desses eu li na coluna Almanaque Gaúcho, de Olyr Zavaschi, publicada diariamente (menos domingo) em Zero Hora, um pequeno artigo “A milenária polenta” (p. 54, 23/05/2009). Pois este alimento – tão associado ao imigrante italiano no Rio Grande do Sul – sintetiza múltiplas e antiquíssimas influências – vejam só! – asiáticas, européias e americanas, ou seja, muito além da Itália e das zonas de colonização itálicas em solo gaúcho. Assim, um símbolo distintivo de uma etnia, carrega, na verdade, aquilo que todos somos: seres culturalmente híbridos desde sempre, não havendo existência real de purismos, fechamentos e exclusividades.

Anota Zavaschi que “a palavra como hoje é usada chegou à península Itálica com os hunos. O termo caucásico pulint (que se pronuncia pulent) foi trazido para o Ocidente com as tropas de Átila, no século 4º. Com a descoberta [?] da América e a introdução do e de sua farinha na Europa, a polenta ganhou um ingrediente fundamental. Foi assim, feita de farinha de milho, com herança asiática e ingredientes pré-colombianos, que ela embarcou nos navios da imigração no fim do século 19.”

O colunista finaliza dizendo: “Antes da vinda dos italianos, já se consumia no Brasil um produto assemelhada, o angu, que provavelmente tenha origem na papa de milho, consumida na Ilha da Madeira.”

A mesma coisa com a cuca, por exemplo, bolo típico das regiões e grupos com colonização germânica aqui no Rio Grande do Sul. Muitas influência e história se consubstanciam naquela delícia, com é o caso das coberturas tão tropicais – abacaxi, banana e o coco; ou ameríndias – o amendoim e o chocolate... Nas proprias comunidades massivamente formadas por descendentes de imigrantes da região que hoje é a Alemanha, come-se a cuca acompanhado de uma beberagem do povo guarani, o chimarrão, feito da nativa Ilex Paraguariense, a erva-mate.

11 de jun de 2009

O golpe fatal – sobre a morte de David Carradine, de Kung Fu e Kill Bill

O famoso ator David Carradine, que interpretou o desgarrado monge Shaolin no não menos famoso seriado televisivo Kung Fu – exibido originalmente a partir de 1972 pela rede ABC dos EUA – foi encontrado morto no quarto de um hotel na Tailândia no último dia 4 de junho (2009). Tinha 73 (alguns falam em 72) anos e tudo indica que ele não se matou, embora tenha sido encontrado com improvisadas cordas no pescoço, dependurado dentro do guarda-roupa do seu quarto em Bangcoc, onde participava de filmagens.

O que ele estava fazendo daquele jeito? Ora, nada menos que praticando uma técnica da velha punheta, que recebe o "nome técnico de "hipóxia auto-erótica"*. Ou seja, Carradine masturbava-se quando lhe abateu um “piripaque” devido à auto-asfixia. O coração do também intérprete do chefão dos filmes Kill Bill I e II parou, interrompeu seu vai e vem, e o septuagenário escafedeu-se de maneira irrecuperável... Bizarro. Talvez nem Tarantino pudesse imaginar um desfecho assim patético...

Sabe-se que a asfixia pode produzir uma ereção vigorosa. Combinada com todo o composto emocional do limiar da morte (ou da vida), situação tão ligada à libdinosidade (“Freud explica!”), estamos diante de uma poderosa “auto-gratificação” sexual.

Carradine poderia ter mulheres quase à vontade. Grana não lhe faltava. Estava hospedado nababescamente. Mas optou pela masturbação! Eis um grande mistério... Talvez até em acordo com seu personagem “Gafanhoto”, andarilho fugido da China (Tailândia também é no Oriente...), naquela mistura melancólica e enigmática de western (ou bang bang) e filme de artes-marciais. Aos 73 anos, homem de sucesso, recuperado do alcoolismo, rodeado de belas moças, David apela para "la palmita de la mano", o “cinco-contra-um”, “descabelar o palhaço”, “descascar a banana”...

O que há em nós para esta busca de regozijo erótico auto-suficiente? O onanismo** parece uma religião pagã bastante popular pela vida e mundo afora. De alguma maneira, estabelece um “religação” conosco mesmo e nos proporciona momentos epifânicos...

Enfim... O monge solitário de Kung Fu acabou manifestando-se de uma forma inusitada na morte de Carradine, seu intérprete agora eterno. O ator morreu buscando solitariamente, numa íntima e, no caso, perigosa arte, sua redenção – nem que seja por segundos –, de alguma forma mimetizando o personagem Kwai Chang Caine...

(Mas vamos esperar as perícias e investigações para sabermos mesmo o que aconteceu.)

* Rogério Bernardo, urologista, em seu blog - http://papocomrogerio.blogspot.com -, diz que "Hipóxia Erótica ou Hipóxia auto-erótica, [é o] ato de provocar privação de oxigênio com aumento da concentração de dióxido de carbono da circulação sanguínea, o que provocaria uma maior excitação e um acréscimo do prazer. / Alguns autores atribuem ao efeito alucinógeno do aumento do aumento de monóxido de carbono. Outros defendem que a elevação das catecolaminas, entre elas a adrenalina seria a responsável pelo prazer provocado pela hipóxia erótica. / Para se ter uma idéia da quantidade de pessoas que já faleceram desse mal, cerca de 500 a 1.000 nos EUA, faleceram em apenas um ano decorrente de hipóxia erótica. / As técnicas de privação de oxigênio são várias: cinto, corda, retalhos de panos, sacos plásticos, etc. Outro dado é que o acometimento é quase sempre masculino, e geralmente acessórios sexuais ou roupas femininas são encontrados próximos às vítimas. Em alguns casos, as vítimas foram encontradas vestidas em roupas femininas e até com perucas. / Os praticantes da hipóxia erótica vivem em uma tênue linha entre o prazer exacerbado e a morte. É que a alucinação provocada pelo aumento do dióxido de carbono pode levar a uma perda de consciência e o indivíduo não consegue desfazer a constricção cervical, ou seja, ocorre o enforcamento até a morte. / Estamos longe de entender o que aflora no universo da sexualidade humana".

** Moacyr Scliar lançou recentemente (junho de 2009) mais uma obra, abordando um tema que entrou em questão aqui, a "paixão solitária" - e o livro se chama justamente de Manual da Paixão Solitária (Companhia das Letras, 2009). Conhecedor e apreciador da bíblia e tradições da cultura e história hebraicas, fala do onanismo, termo derivando de um personagem bíblico. Conforme a reportagem Em busca do prazer solitário, de Chico Caldeira (EpNews), publicada na Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul) o livro "trata da trajetória do patriarca Judá, de seus filhos Er, Onan [olha aí o nome do cara!] e Shelá e de suas conturbadas relações com a linda Tamar. [... Mas] o verdadeiro teórico e defensor do sexo solitário foi Shelá [Onam só levou a fama...], o irmão caçula que, impedido pelo pai de desposar a fogosa Tamar, busca consolo com as mãos numa caverna escura e usa a imaginação para transformar a masturbação em um sofisticado ritual [- e nisso Carradine se deu mal da última vez...]. Segundo Shelá, masturbar-se é uma espécie de transfiguração, um momento culminante da existência humana [- no caso do ator, culminou na radicalidade da morte...].

Scliar diz que "o texto bíblico também deve ser lido da mesma forma que os livros de autores clássicos. 'Como um livro de Shakespeare ou Cervantes, os jogos de poder e as intrigas amorosas comuns a nossa natureza estão nessa obra. A Bíblia é um verdadeiro catálogo das paixões humana.'"

Acerca de um texto - comentário


Li rápido e achei que há coisas legais ali, caro Marcelo. Mas este termo "O Criador", em (talvez) substituição a "O Deus", cai em duas situações em que meus preconceitos formigam deveras: (I) trata-se de uma expressão masculina (por que o autor não usa "A Criadora"???) e (II) insere-se numa visão que existe UM ser ou força criadora tão somente... Por que isso, tchê? Que coisa é essa de UNIDADE? Por que não pode ser algo poli/maxi/hiper/mega/difuso? Sei que a Cabala tem a ver com o esoterismo israelita; talvez venha daí esses dois elementos cretinos da nossa "cultura ocidental", que posso fundir na expressão "machismo monoteísta" - O Todo Grande Falo Dominador que criou o céu e a terra. Sei que, como estratégia mental, fazer aquelas elucubrações, a fim de absorver negativismos e ficar-se tranquilito com o nosso futuro e passado, nisto as propostas do texto podem ser boas. Mas eu não quero engolir qualquer argumentação/discursso/profissão de fé etc. que não seja transmutada pelo meu próprio ser ideologicamente cambaleante, duvidoso e frágil, mas sedento de epifanias. Hoje, talvez, a linha que me parece mais interessante para se compreender e vivenciar o mundo é algo próximo ao zen budismo (nada de budismo tibetano, com seu ritualismo, panteão e hierarquia tão carnavalesca e opressiva quanto a comandada pelo Bento 16), onde não há deidades a se cultuar, tão somente uma atitude de contemplação, paciência, compaixão e absorção transracional de tudo que nos cerca.

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O texto em referência é o seguinte (reproduzo só os 3 parágrafos iniciais):

A Atitude – O trabalho espiritual

por Michael R. Kellogg

Todos os dias, passamos por dezenas ou centenas de situações com as quais podemos não concordar de uma maneira ou outra. Nós podemos acordar ao lado de um cônjuge resmungão, ter ao lado uma pessoa que nos incomoda durante a viajem diária ao trabalho, problemas com o chefe ou com um projeto; a lista é interminável.

No entanto, a grande maioria destas experiências negativas quase nem nos afeta e nem sequer perdemos um segundo do nosso pensamento com elas. Quase nem se nota o menor dos acontecimentos. Se nos sentimos incômodos na cadeira ou nos afogamos com um copo de água, fazemos uma careta, nos acomodamos e continuamos com as nossas atividades.

Porém, cada um desses acontecimentos negativos nos dá uma oportunidade para preparar o trabalho espiritual. É assim porque a espiritualidade tem tudo a ver com a nossa atitude em relação ao Criador. Nos disseram que há dois fatos fundamentais. Em primeiro lugar, “Não existe ninguém mais além Dele”, o que significa que não existe nenhuma outra força no mundo que não seja o Criador, e Ele é a força motriz que está atrás de cada ato. (...)

5 de abr de 2009

Quadrinhos e literatura. Será? Watchmen, Lost Girls...


Na onda das adaptações cinematográficas de clássicos das histórias em quadrinhos, quero trazer à baila o debate sobre se as HQs podem ser caracterizadas como literatura. Eu digo que sim, podem, sim!

Numa reportagem sobre o filme que foi lançado dias atrás, Watchmen, baseado (com muito sucesso, me parece – mesmo considerando os protestos do próprio autor da obra original), o inglês Alan Moore [foto ao lado - divulgação], escritor e roteirista (o desenho, igualmente considerado um primor – cuja combinação com o texto escrito é justamente a essência característica desta literatura – é de Dave Gibbons). Enfim, a reportagem diz:

“’Watchmen’ ganhou vários prêmios Eisner (o Oscar dos quadrinhos) e foi a primeira HQ a levar um Hugo, a premiação máxima de ficção científica que, até então, era reservada somente à literatura tradicional. Com essa carreira promissora, a HQ transformou-se em um fenômeno da cultura pop a ponto de a revista ‘Time’ elegê-la um dos 100 romances mais importantes do século 20.”

Ou seja: mais do que literatura, Watchmen é considerado por uma das mais conceituadas revistas mundiais como um romance fundamental do século XX.

Claro que nessa importância não entram necessariamente questões de uma estética literária normalmente considerada (administrada/controlada, quem sabe) pelas “academias” – esses antros que não raro estão carregados de boçalidade e preconceitos diversos. Provavelmente, entram nesse destaque a influência em termos de quantidade de leitores, comentários e outras derivações geradas pela obra.

A reportagem ainda diz que “Nessa sua obra-prima, Moore questiona autoridade, vigilância, justiça, HQs e histeria em um roteiro adulto, pesado e violento.”

Para quem tem interesse em literatura, não dá, em nome de algum tipo de pré-noção, ficar sem ao menos conferir HQs como Watchmen. Isso que não estamos falando no “mestre dos mestres” – Will Eisner, do The Spirit, e que cunhou a expressão “graphic novel”, e caras ainda mais pops como Frank Miller, autor de Sin City, 300 e Elektra.



LOST GIRLS

To lendo neste fim de semana umas coisas sobre o Alan Mooore, meu novo "muso" dos quadrinhos. Britânico, diferente do Eisner, americano. É dele o Watchmen, que estava no cinema.
Mas o mais interessante: Sua última obra, em três volumes, se chama Lost Girls. Em português ficou assim também, Lost Girls.

Ele escreve e roteiriza e sua mulher, Melinda, desenha. Muito bonito. "Uma graphic novel erótica que conta as aventuras sexuais de três importantes personagens femininas fictícias do final do século 19 e início do século 20: Alice, de 'Alice no País das Maravilhas'; Dorothy Gale, de 'O Mágico de Oz'; e Wendy Darling, de 'Peter Pan'."

Pornográfico? O cara fala sobre isso. Diz que foi complicado, mas que, afinal, esse negócio de escamotear algo que move o mundo e está presente diretamente na vida de todos 100% do tempo, é uma idiotice. Mas ele mesmo, em entrevista, pondera:

"A pornografia que temos hoje parece não ter nenhum valor artístico, parece criada para estimular as pessoas a qualquer outra coisa que não sexo. Uma das melhores coisas da arte, da arte genuína, é que quando vemos uma imagem ou descrição de algo que se relacione com um sentimento que temos e não conseguimos expressar, ela nos faz sentir menos sozinhos. E o que a pornografia de hoje faz é o exato oposto. Faz com que você se sinta envergonhado, mais sozinho do que nunca. Vemos ou lemos pornografia sozinhos, como se o nosso prazer fosse algo para se envergonhar, algo deplorável. E isso é uma tremenda pena se pensarmos que se trata de uma atividade humana tão prazerosa. Praticamente todos os diferentes gêneros de ficção que temos hoje são baseados nessas áreas improváveis da atividade humana, como caubóis, detetives e monstros. Enquanto aquilo que mais temos em comum, que é algum tipo de prazer sexual, só pode ser abordado nesse gênero grosseiro, tolo e por baixo do pano pelo qual todos se sentem culpados e envergonhados. O que pretendíamos com 'Lost girls' era eliminar essa relação imediata entre pornografia e vergonha. Pensamos que se pudéssemos produzir uma pornografia que fosse bela o suficiente e inteligente o suficiente e séria em sua aplicação então talvez fosse possível que pessoas civilizadas e dignas não se sentissem envergonhadas de ter uma obra pornográfica em suas casas."

Moore é um cara muito interessante: anarquista, contestador, corre por fora da indústria cultural mais mercenária, crítico das adaptações de Holywood e seus mercenários...

Ele e Melinda levaram 16 anos até aprontar os três volumes do Lost Girls. Arriscaram um monte usando três personagens tão importantes na literatura infanto-juvenil mundial. São peças-chaves em três romances fundamentais. Mas parece que deu certo, pelo pouco que pude ver até agora.

O Watchmen, que vi no cinema na quarta-feira, é uma adaptação de uma “graphic novel” das mais importantes. Ao pondo d'"a revista ‘Time’ elegê-la um dos 100 romances mais importantes do século 20". E ninguém sabe disso lá no curso de Letras da facul... Triste limitação...