8 de ago de 2009

A ira de John



Muito bonito esse livro do John Steinbeck (foto ao lado do autor), As vinhas da ira, originalmente publicado em 1939 (70 anos em 2009, então!). Demorei a começar lê-lo. Mas descubro um “tratado” sobre a história sócio-econômica, a mecanização do campo – chegada dos tratores –, o endividamento, a usurpação dos bancos e o domínio satânico das companhias anônimas, às quais não se tem a quem recorrer e cai-se numa impotência diabólica; um “monstro”, como é dito no próprio romance. Monstro, figura perfeita para denominar a perversão dos humanos a um “ser” sem travas, onipotente, onipresente, com aquele tal de “dom da ubiqüidade”, em frieza mortal e humilhadora.

Tenho falado isso sobre as companhias telefônicas, por exemplo. A quem se reclama mesmo? Os atendentes são pobres coitados, escravizados numa terceirização da terceirização, respondendo feitos robôs pseudo-impassíveis – fico imaginando quantas doenças acumulam em seus corpos-mentes diante de tanta indignação que devem receber na cara sem reação, contendo todos os seus impulsos (são [mal] pagos pra serem escarrados, evidentemente – uma forma de diminuir a nossa revolta através de bodes expiatórios lamentáveis). Enquanto isso, os grandes executivos destas companhias anônimas e os grandes acionistas destes demônios burocráticos criados por humanos – e que agora se tornaram uma plêiade totalitariamente dominando a existência de todo o mundo – usufruem de um bom quinhão – a milenar recompensa dos traidores e devotos prediletos e esforçados dos –, com seus jatos e iates particulares, enquanto a massa de palhaços torturados tenta achar graça do espetáculo a que estão submetidos em semi-consciência.

Alguns de nós, palhaços serviçais, são baba-ovos e movemo-nos na esperança de um dia “chegar lá”, ou seja, ter sua alma comprada, prostituindo-se infamemente, mas sentindo aquela satisfação dada pelo poder, pelo “ser admirado” - uma droga das mais embriagadoras e auto-destrutivas (provas não faltam).

Salve John Steinbeck e todos que abrem frestas no cu da besta e, de forma profunda e sensível, apresentam a imbecilidade dos que se acham desfrutadores do culto ao belzebu capitalista! Se houver alguma justiça transcendental, que ela seja condizente com a quantidade de dor que esses filhos do perverso estão em íntima colaboração.

(continua)
Agora faltam poucas páginas para terminar (24/10/2009). Tenho lido aos poucos. Em intervalos, para trocar de tema e não me cansar, faço outras leituras, como foi o caso do livro do Saul Bellow, Agarre a Vida - além de revistas, jornais, essas coisas.
O que me tem vindo à mente é o paralelo que se pode fazer entre o movimento dos sem-terra no Brasil e a história destes agricultores norte-americanos que migram em massa para a Califórnia nos anos de 1930/40. (Há aí uma ligação entre os romances As Vinhas da Ira e Quem faz Gemer a Terra, de Charles Kiefer, ou seja, entre agricultores sul-brasileiros e norte-americanos).
Esta massa é ao mesmo tempo necessária para a colheita nas gigantescas plantações de frutas e algodão, e uma "ameaça" a propriedade e a "ordem estabelecida", causando medo nos proprietários, empresários rurais e na população local - que se vê "invadida" e com seus empregos em risco. Logo forja-se o preconceito e o apelido "okie" - que designava alguém que vinha da região de Oklahoma - passa a designar todos os "forasteiros", associando a seres invasores, pérfidos, sub-humanos, bandidos e até vagabundos - embora busquem desesperadamente trabalho e tenham passado suas vidas trabalhando em suas terras, que no processo de mecanização, endividamentos, apropriação por bancos e transformação da agricultura em "agrobusiness" nesta fase do capitalismo, se vem enredados, encurralados, forçado até por forças policiais, a migrarem com seus poucos pertences sobrantes, atraídos pela propaganda de fartura na Califórnia. Mas lá passam o cachorro, humilhações, fome, agressões de todos os tipos; a super-exploração - e toda tentativa de organização dos trabalhadores, mesmo que incipiente e pouco consciente, é tratado com agressividade máxima; "os vermelhos" são caçados feito cães contaminados... Nada muito diferente do que ainda vemos aqui...
Steinbeck recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1962. Sensibilidade aguçada e vivência lhe deram esta perspectiva crítica, retratando as agruras desses despossuídos, mostrando a injustiça social - marca de sua literatura engajada. Suas obras são um caminho para a sensibilização e abertura do leitor à compreensão de fenômenos sociais, de relações humanas, de estruturação da sociedade, rompendo com visões amesquinhadas, medíocres e, consequentemente, reacionárias, favoráveis a escravidão da esmagadora maioria em favor de uma minoria que se sustenta no poder e no desfrute de uma abundância - que deveria escandalizar e produzir uma revolta coletiva, evitada pelos mecanismos ideológicos do conformismos, como a maioria das escolas (pedagogia) e igrejas (teologia).
Entretanto, apesar de obras como esta de Steinbeck, escritas há 70 anos, há gente inteligente que concebe os sem-terras como semi-animais pestilentos... Não raro, são tão pobres ou somente remediados, mas adotam o discurso reacionário que ali adiante os fere; chibatam suas próprias costas e livram uma elite de se defrontarem com sua vileza quase sempre também subconscientes, represada por ideologias que lhes aliviam, embasam e justificam privilégios tão elevados.
O livro é cheio de possibilidades de análise, contemplação e regojizo. Um antropólogo poderia gostar da análise que ele faz da organização das famílias, das comunidades rurais e depois as comunidades dos acampados; um sociólogo e historiador, toda o desenvolvimento do capitalismo americano nos anos de 1930/40. Um geógrafo, as regiões dos EUA, a economia, a agricultura, o automóvel, o caminhão, o trator "tomado conta"...
(continua)

3 comentários:

Cassionei Petry disse...

Rapaz, que texto indignado! Onde eu assino?

Luis Fernando disse...

Livro notável, todos deveriam ler. Em se puderem, assistir ao filme homônimo de John Ford.

Luis Fernando disse...

Quer dizer, E se puderem...