5 de set de 2009

Álcool



O álcool talvez seja a droga mais antiga e popular do nosso planeta – na forma de fermentados e destilados, feitos a partir de cereais, frutas e outros vegetais. Índios da América do Sul usavam (e ainda usam) a mandioca numa fermentação desencadeada pela saliva das jovens nativas; egípcios do norte da África apreciavam já em prototípicos pubs um ancestral chope, que, depois de muitas voltas, passou a ser a bebida-símbolo dos alemães, em especial através da difusão dada pela Oktoberfest no começo do século XIX em Munique.

Cachaça, uísque, vinhos, conhaques, cervejas, misturas diversas, formulações várias – sempre tendo o álcool potável como o seu agente psicoativo-mor. E as sensações podem ser tão “boas”, tão agradáveis, que o indivíduo começa a ingeri-lo compulsivamente – criando-se, muitas e muitas vezes, uma terrível dependência química, não raro com um final em cruenta tragédia.
Particularmente, não é o álcool, e, sim, o café a minha droga diária, onde busco o sabor peculiar e o efeito estimulante. A cafeína dinamiza a atenção e o intelecto, digamos assim. O álcool, para mim, tem sido um relaxador leve, descontraindo-me, sem que eu chegue a algum “êxtase” – nem caia num torpor mórbido ou euforia incontrolável.

E esse efeito relaxante e desinibidor – permitindo ao sujeito manifestações de suas vontades, pensamentos e índoles represadas – é, no meu entender, o motivo principal da generalização do uso do álcool – tornando-o a droga mais “pop” em todos os continentes, em todas as idades e em todas as classes sociais.

Numa sociedade onde a moldagem, via o processo de socialização, leva a auto-repressão (e sem isso não há civilização ou similares grupos humanos estáveis), que se interioriza no indivíduo como uma composição de sua personalidade, o álcool é a “válvula de escape” – para o indivíduo e para a comunidade. Assim, torna-se uma “droga constitutiva”, inerente, “necessária” a nossa vida social/sociedade – assim como estão se tornando os fármacos antidepressivos e, mesmo, a maconha, que se ressente da repressão e preconceito gerado pela ilegalidade do seu comércio.

Já o álcool, propalado em anúncios televisivos muito bem elaborados – tendo como “garotos” e “garotas-propagandas” estrelas da mídia nacional –, perversamente associa-se apenas a prazeres: alegria, bem-estar, amizades, beleza, sexo, sucesso com mulheres/homens, etc. Evita-se a os incontáveis infortúnios diretos e indiretos derivados do seu consumo contumaz ou sem observâncias de cuidados fundamentais, como não dirigir após a ingestão.

Concluo que, sendo o álcool (entre outras drogas), como afirmei, constitutivo do nosso tipo de organização coletiva, o “combate” (palavra muito inadequada) deve ser pensado para além da repressão. O caminho me parece ser – e com o temor de soar demasiado utópico –, em primeiro lugar, pela abertura de espaços lúdicos e outros que possibilitem a expressividade de outras facetas do ser humano, assim como uma educação pautada na libertação das potencialidades humanas e responsabilidade pessoal e grupal. Em segundo lugar, o desestímulo ao consumo, banindo a propaganda massiva, caso da em canais abertos de TV. Em terceiro lugar, ampliando e aprimorando uma regulamentação do consumo, evitando o abuso e uso precoce dessas substâncias, como já dispõe o Estatuto da Criança e do Adolescente.

------------------


*Li uma matéria que saiu na site Rolling Stone brasileira sobre a cantora Amy Winehouse. Anotei a seguinte conceitualização que ela deu pra duas drogas nossas conhecidas: “A mentalidade por trás da maconha tem a ver com o hip-hop, e quando fiz meu primeiro álbum eu só ouvia hip-hop e jazz. A mentalidade da maconha é muito defensiva, tem um clima de ‘foda-se, você não me conhece’. Enquanto a idéia por trás do álcool tem muito mais a ver com ‘oi, sou eu. Ah, eu te amo, vou deitar no meio da rua por você. Não estou nem aí se você nunca olhar para mim, eu sempre vou te amar’.”

**Uso cerimonial de fermentados alcoólicos pelos índios (noutro momento, já mencionei o tabaco, outra planta que pode ser arrolada na etnobotânica americana, descoberta, cultivada, beneficiada – secagem das folhas, manufatura de “charutos”, desenvolvimento de cachimbos e outros meios de uso – por povos “pré-colombianos”, de uso cerimonial e medicinal, apropriada pelos europeus e transformada em mercadoria e produto de uso vulgar, generalizado e compulsivo):

Na obra do genial folclorista Luis da Camara Cascudo, História da Alimentação no Brasil, documento dos mais vastos e interessantes sobre a cultura, história e sociedade brasileiras, há um capítulo (p. 143) tratando das bebidas usadas em rituais festivos pelos índios brasileiros. Cascudo cita o alemão Hans Staden, que conviveu com nativos por volta de 1554:

“As mulheres é que fazem também as bebidas. Tomam as raízes de mandioca, que deitam a ferver em grandes potes, e quando bem fervidas, tiram-nas e passam para outras vasilhas ou potes, onde deixam esfriar um pouco. Então as moças assentam-se ao pé a mastigarem as raízes, e o que fica mastigado é posto numa vasilha à parte. Uma vez mastigadas todas essas raízes fervidas, tornam a pôr a massa mascada nos potes que então enchem de d’água e misturam muito bem, deixando tudo ferver de novo. Há então umas vasilhas especiais, que estão enterradas até o meio e que eles empregam, como nós os tonéis para o vinho e cerveja. Aí despejam tudo re tampam bem; começa a bebida a fermentar e torna-se forte. Assim fica durante dois dias, depois de que, bebem e ficam bêbados [tal expressão talvez não seja a mais adequada, devida a sua carga pejorativa]. É densa e deve ser nutritiva.”

Além da mandioca, também se usava o milho e outras plantas e partes de vegetais, como ananás e raízes de certa pimenteira, todas obedecendo ao processo básico – usado por diversos grupos aborígenes do mundo todo, do Peru à Austrália – de desencadear a fermentação do produto pela mastigação: “Na diástase da saliva a ptialina transforma o amidos das raízes e dos frutos em maltose e dextrina, provocando a sacarificação, resultante dos ácidos orgânicos sobre os açúcares.”

A repugnância e paulatino desuso do processo de fabricação dessas bebidas pela mastigação. Cascudo acredita “que à nossa vã filosofia ‘científica’ escapam razões milenares e secretas de certos atos da [assim chamada] vida primitiva. E mesmo da vida popular contemporânea. (...) A saliva está neste plano, mágico, histórico, universal no espaço e no tempo.”

Outra observação fundamental de Cascudo: “Beber por desfastio, divertimento, desejo íntimo, não existia e quase não existe entre os aborígenes. Indígena isolado, bêbado, é contágio de ‘branco’. Bebida é sempre função grupal, solenidade com motivação indispensável.”

As “caiuagens” [consumo coletivo do fermentado] não era algo do dia-a-dia, mas fazia parte da rotina social dos grupos. A bebida “era cerimônia especial e distinta”. Durante esse período, os indígenas abstinham-se de alimentos. Nas refeições cotidianas, quando se sente necessidade, bebe-se água pura, diz Cascudo.

Cascudo, ainda neste capítulo, fala do caápi, um cipó – ou melhor, a “infusão da casca previamente socada num pilão especial, mal diluída em um pouco de água” – que “produz um sumo amargo, servido depois das amplas bebidas coletivas, promovendo sonhos, excitações, semidelírios, no alto do rio Negro e mais freqüentemente no Uaupés. (...) O uso do caápi parece ter sido influência incaica, onde dizem ayauasca e lluasca.”
*** Na foto (divulgação), mastigação de Cauim de milho (Mitähi) por índia arawete.

Nenhum comentário: