29 de jan de 2010

Sim, brinco é coisa de gaúcho!


Acho que há um certo ridículo nas posições francamente preconceituosas dos autodenominados tradicionalistas, que se pretendem guardiões da “autêntica identidade gaúcha”.

Ou desconhecedores, ou leitores limitados a manuais de CTGs, reproduzem idéias que nada tem a ver com “usos e costumes” tradicionais. Têm a ver com uma normativa conservadora, arbitrária e datada, estabelecida por um grupo com padrões moralistas e estéticos desligados de "real passado", ou seja, do que se tem de documentação fidedigna da formação da população pampiana – do sul do Brasil, e regiões platinas do Uruguai e Argentina – alcunhada de gaúcha.

Só um exemplo: o uso de brincos por homens. Sem conseguir disfarçar a homofobia latente – às vezes, parece, tentando exorcizar fantasmas de sua própria orientação sexual, que não consegue seguir convenções sociais –, proíbe-se o uso deste tão antigo adereço corporal, que, pela ignorância e preconceito mencionados acima, associa-se unilateralmente como algo "de mulher" ou "de maricas".

Pois vejamos a ilustração (de Raimond Quinsac Monvoisin, pintor francês, retirada do livro de Véra Stedile Zattera, Cone Sul – Adereços Indígenas e Vestuário Tradicional,1999) que acompanha este texto. Um garboso “Estanciero” do “Rio de La Plata”, com indumentárias tipicamente gauchas – chiripá, esporas, laço, lenço etc. –, apresenta em sua orelha uma argola metálica, de provável uso habitual e elemento que reforçava a masculinidade do portador - bem ao contrário do que julgam certos senhores macanudos, que se escandalizam, porque presos em seu parco conhecimento histórico e abertura às mudanças culturais inerentes à dinâmica social.

(Lembremos também dos mais que machescos piratas, retratados com suas argolas nas orelhas e faca entre os dentes, em cruentas lutas para espoliar embarcações em alto mar.)

Então, não seria ao menos prudente, para não se sair a dizer mentiras e evitar “cagar lei”, proibindo estupidamente isso ou aquilo em nome de asnices? Paremos e busquemos sempre saber mais, refletir, informar-se – e não nos guiarmos por concepções e emocionalismos cujo fundo é tão frágil, tão débil, que só se sustenta numa infeliz indigência intelectual.

O fumante gourmet


Dizem que a apreciação possibilitada pelos órgãos dos sentidos é um aprendizado, uma sabedoria desenvolvida ao longo da vida. A existência se qualificaria através de uma apropriação cada vez mais refinada das sensações intermediadas por nossos olhos, nariz, ouvidos, boca e pele, geradores de emoções.

O que seríamos sem as sensações, as emoções (em que pese deficiências físicas)? Parece que o ser humano se define pela sensibilidade, pela emotividade. E não só em situações “grandiosas”, mas em “pequenos momentos”.

Tal introdução é para falarmos de coisas como comer, beber, cheirar, tocar, ver e, com isso, emocionar-se e gerar reflexões sobre o miraculoso da trajetória humana – de resto tão limitada e breve.

É bastante tranqüilo e considerado superbacana e saudável palestrarmos sobre “o gourmet”, ou seja, a pessoa que curte pratos, cafés e vinhos, por exemplo. Mas o gourmet de cigarros, cigarrilhas, charutos e “assemelhados” definitivamente está entrando numa categoria muito próxima ao do drogadicto contraventor.

Porém, não déia de ser compreensível. Após anos de propagandas massivas incentivando o consumo indiscriminado do tabaco, como se tratasse de um produto inócuo, as pesquisas médicas não deixam dúvidas sobre os males que o uso contínuo acarreta. E, sendo assim, estão certas as restrições ao consumo.

Mas, creio eu, só até determinado ponto os impedimentos são aceitáveis e válidos. Se a pessoa é maior de idade e não estiver prejudicando terceiros, fumar é algo que está na conta da sua liberdade, um direito individual básico contemplado nas legislações dos países civilizados e na própria Declaração Universal dos Direitos Humanos – que diz, no artigo 12º: “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada”, tendo “direito a proteção da lei.”

Evidente: se o fumante está trazendo incômodos com a exalação da fumaça, deverá se abster no momento, porque está ferindo a liberdade alheia. Mas em locais permitidos ou/e que não estejam influindo na saúde alheia, nada poderá impedi-lo, a não ser sua própria consciência.

O problema, me parece, está numa “satanização” do fumar e, consequentemente, do fumante. Concordo que o uso compulsivo do tabaco é tão perverso e detestável quanto o da bebida alcoólica e outras drogas lícitas e ilícitas. Mas comedidamente, responsavelmente, fumar é um prazer tão “digno” quanto beber um expresso, um cálice de algum cabernet, o degustar de um macarrão al pesto etc.

São momentos de fruição, de contentamento, onde os sentidos se alertam, as emoções afloram e a reflexão “corre solta”, embevecida e impulsionada por sabores, aromas, plasticidades e outros deleites estéticos e efeitos no bem-estar da pessoa.

Talvez sejam essas coisas que estejam nas origens milenares, ritualísticas, religiosas, xamanísticas de produtos elaborados a partir de vegetais como o tabaco. E considerando essas coisas, penso que banir-se o consumo do fumo é, na prática, impossível, tal o seu enraizamento histórico. Também é perder-se um meio adulto de autogratificação e expansão de percepções.

Concordando com as limitações legais, para a proteção aos não-fumantes e não-influência a crianças e jovens (a mesma coisa deveria ocorrer com qualquer bebida alcoólica), vejo, entretanto, que há formas de convivência pessoal e coletiva com quem aprecia degustar seu “pito”.

16 de jan de 2010

Denuncismo e o sepulcro caiado


Esta semana, por uma lista que participo, recebi um e-mail desses de “corrente”, denunciando um suposto ato de censura ao cineasta, comentarista político e escritor Arnaldo Jabor.

Só para registrar o meu repúdio ao denuncismo manipulador – da informação e dos internautas – reproduzo a troca de e-mails aqui no blog.

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Amigos,

Eu mandei um e-mail fazendo umas "ponderações" sobre essa "corrente" e enviei pro pessoal da lista, mas não sei o que aconteceu. Ninguém reagiu... Vou aproveitar e colar a mensagem aqui de novo, porque fala disso: como usam de manipulações e falsidade para exigir "ética"??? [Por que será?]
I.

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Sem querer entrar em defesas partidárias, ideológicas etc., mas parece que essa é uma "notícia" requentada. Mais ainda: flagrantemente manipulada, para parecer "urgente", atual e com um conteúdo nada a ver com a notícia original.

A tal retirada se refere a algo acontecido há mais de 3 anos, em 2006, durante as últimas eleições presidenciais, requerida pela coligação A Força do Povo. E como eu disse, sem ligação alguma com a opinião reputada ao Jabor, colada à mensagem enviada. A fala dele, contestada no processo de 2006, é completamente outra e está num contexto de disputa eleitoral, onde existe um regramento, nada a ver com "censura".

Não sei quem produziu essa "corrente". Mas fica estranho. Que moral esse pessoal vai ter se usa informações manipuladas, distorcidas e mesmo inverídicas para combater supostas mentiras, escamoteações e "pouca-vergonha"??? Cai tudo por terra... A cueca está furada, tchê!

Abaixo, a notícia que saiu em 2006 no Terra (http://noticias.terra.com.br/eleicoes2006/interna/0,,OI1189873-EI6652,00.html).

W.


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Notícias Eleições 2006

Presidencial

TSE determina retirada de comentário de Jabor na Internet

Sexta, 13 de outubro de 2006, 15h43

O ministro Ari Pargendler, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a retirada da página da rádio CBN na Internet, e das páginas de todas as suas afiliadas, do comentário do colunista Arnaldo Jabor feito no último dia 10 de outubro. O juiz considerou que o comentário favorecia o candidato à Presidência da República Geraldo Alckmin (PSDB) e prejudicava o candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O pedido da liminar para retirada foi requerido pela coligação "A Força do Povo" (PT-PRB-PCdoB), que apóia a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O advogados da coligação argumentaram que o comentário de Arnaldo Jabor teria emitido opinião favorável ao candidato Geraldo Alckmin e negativa ao atual presidente da República.

O comentário impugnado foi o seguinte: "amigos ouvintes, o debate de domingo serviu para vermos os dois lados do Brasil. De um lado, um choque de capitalismo. De outro, um choque de socialismo deformado num populismo estadista, num getulismo tardio. De um lado, São Paulo e a complexa experiência de Estado industrializado, rico e privatista. De outro, a voz dos grotões, onde o estado ainda é o provedor dos vassalos famintos. De um lado, a teimosa demanda do Alckmin pelo concreto da administração pública, e do outro, o Lula, apelando para pretextos utópicos, preferindo rolar na retórica de símbolo (...)".

A rádio foi notificada da decisão, por fax, na quinta-feira.

Redação Terra

Leia esta notícia no original em:

Terra - Brasil

http://noticias.terra.com.br/eleicoes2006/interna/0,,OI1189873-EI6652,00.html



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De: v.
Enviada: qui 14-01-2010 20:10
Para:
Cc:
Assunto:
Re: Náo deixem de ler [sic]

Maravilhas da internet.

Me dei o trabalho de pesquisar (rapidamente, é verdade) pra ver se esse é mesmo do Jabor, pois ele escreve bem melhor que isso pauleando o Lula e outros, sem julgar o tema do artigo, só o estilo. Sem falar que um simples "copiar/colar" da coluna dele já daria uma diagramação mais atraente.

Me pareceu, um artigo escrito por alguém que não está convencido que só seu texto bastaria pra ser eloquente (além desse monte de exclamações !!! e esse grifos em vermelho, pra nós e o "povo" entendermos os tópicos.), preferindo colocar o nome de um articulista conhecido assinando, pra prestarem atenção. Mesmo que o que está dito não seja mentira, pode ser que eu esteja enganado sobre a pirataria intelectual para manipulação, mas achei ele em vários lugares, menos no Blog do próprio autor ou em algum veículo onde ele escreva.

V.

----- Original Message -----

From:
To:
Cc:
Sent: Wednesday, January 13, 2010 1:25 PM
Subject: Náo deixem de ler

TSE determinou a retirada do comentário de Arnaldo Jabor.

Não deixe de repassar é o mínimo que podemos fazer diante de tanta corrupção!

TSE determinou a retirada do comentário de Arnaldo Jabor do site da CBN.


Leia o comentário de Dora Kramer, Estadão de Domingo:

'A decisão do TSE que determinou a retirada do comentário de Arnaldo Jabor do site da CBN, a pedido do presidente 'Lula' até pode ter amparo na legislação eleitoral, mas fere o preceito constitucional da liberdade de imprensa e de expressão, configurando- se, portanto, um ato de censura.'

Em outro trecho:

'Jabor faz parte de uma lista de profissionais tidos pelo Presidente Lula como desafetos e, por isso, passíveis de retaliação à medida que se apresentem as oportunidades! '

'Não deixem de ler e reler o texto abaixo e passem adiante'!

A VERDADE ESTÁ NA CARA, MAS NÃO SE IMPÕE.

(ARNALDO JABOR)

O que foi que nos aconteceu?
No Brasil, estamos diante de acontecimentos inexplicáveis, ou melhor,'explicá veis' demais.
Toda a verdade já foi descoberta, todos os crimes provados, todas as mentiras percebidas.
Tudo já aconteceu e nada acontece. Os culpados estão catalogados, fichados, e nada rola.
A verdade está na cara, mas a verdade não se impõe. Isto é uma situação inédita na História brasileira!! !!!!!
Claro que a mentira sempre foi a base do sistema político, infiltrada no labirinto das oligarquias, mas nunca a verdade foi tão límpida à nossa frente e, no entanto, tão inútil, impotente, desfigurada! !!!!!!!
Os fatos reais: com a eleição de Lula, uma quadrilha se enfiou no governo e desviou bilhões de dinheiro público para tomar o Estado e ficar no poder 20 anos!!!!
Os culpados são todos conhecidos, tudo está decifrado, os cheques assinados, as contas no estrangeiro, os tapes, as provas irrefutáveis, mas o governo psicopata de Lula nega e ignora tudo !!!!!
Questionado ou flagrado, o psicopata não se responsabiliza por suas ações. Sempre se acha inocente ou vítima do mundo, do qual tem de se vingar. O outro não existe para ele e não sente nem remorso nem vergonha do que faz !!!!!
Mente compulsivamente, acreditando na própria mentira, para conseguir poder. Este governo é psicopata!!! Seus membros riem da verdade, viram-lhe as costas, passam-lhe a mão nas nádegas. A verdade se encolhe, humilhada, num canto. E o pior é que o Lula, amparado em sua imagem de 'povo', consegue transformar a Razão em vilã, as provas contra ele em acusações 'falsas', sua condição de cúmplice e Comandante em 'vítima'!!!!!
E a população ignorante engole tudo. Como é possível isso?
Simples: o Judiciário paralítico entoca todos os crimes na Fortaleza da lentidão e da impunidade. Só daqui a dois anos serão julgados os indiciados - nos comunica o STF.
Os delitos são esquecidos, empacotados, prescrevem. A Lei protege os crimes e regulamenta a própria desmoralização Jornalistas e formadores de opinião sentem-se inúteis, pois a indignação ficou supérflua. O que dizemos não se escreve, o que escrevemos não se finca, tudo quebra diante do poder da mentira desse governo.
Sei que este é um artigo óbvio, repetitivo, inútil, mas tem de ser escrito...
Está havendo uma desmoralização do pensamento.
Deprimo-me:
Denunciar para quê, se indignar com quê? Fazer o quê?'
A existência dessa estirpe de mentirosos está dissolvendo a nossa língua. Este neocinismo está a desmoralizar as palavras, os raciocínios. A língua portuguesa, os textos nos jornais, nos blogs, na TV, rádio,tudo fica ridículo diante da ditadura do lulo-petismo.
A cada cassado perdoado, a cada negação do óbvio, a cada testemunha, muda, aumenta a sensação de que as idéias não correspondem mais Aos fatos!!!!!
Pior: que os fatos não são nada - só valem as versões, as manipulações.
No último ano, tivemos um único momento de verdade, louca, operística, grotesca, mas maravilhosa, quando o Roberto Jefferson abriu a cortina do país e deixou-nos ver os intestinos de nossa política.
Depois surgiram dois grandes documentos históricos: o relatório da CPI dos Correios e o parecer do procurador-geral da república. São verdades cristalinas, com sol a Pino.
E, no entanto, chegam a ter um sabor quase de 'gafe'.
Lulo-Petistas clamam: 'Como é que a Procuradoria Geral, nomeada pelo Lula, tem o desplante de ser tão clara! Como que o Osmar Serraglio pode ser tão explícito, e como o Delcídio Amaral não mentiu em nome do PT ? Como ousaram ser honestos?'
Sempre que a verdade eclode, reagem.
Quando um juiz condena rápido, é chamado de exibicionista' . Quando apareceu aquela grana toda no Maranhão (lembram, filhinhos?), a família Sarney reagiu ofendida com a falta de 'finesse' do governo de FH, que não teve a delicadeza de avisar que a polícia estava chegando...
Mas agora é diferente.
As palavras estão sendo esvaziadas de sentido. Assim como o stalinismo apagava fotos, reescrevia textos para contestar seus crimes, o governo do Lula está criando uma língua nova, uma neo-língua empobrecedora da ciência política, uma língua esquemática, dualista, maniqueísta, nos preparando para o futuro político simplista que está se consolidando no horizonte.
Toda a complexidade rica do país será transformada em uma massa de palavras de ordem , de preconceitos ideológicos movidos a dualismos e oposições, como tendem a fazer o Populismo e o simplismo.
Lula será eleito por uma oposição mecânica entre ricos e pobres, dividindo o país em 'a favor' do povo e 'contra', recauchutando significados que não dão mais conta da circularidade do mundo atual. Teremos o 'sim' e o 'não', teremos a depressão da razão de um lado e a psicopatia política de outro, teremos a volta da oposição Mundo x Brasil, nacional x internacional e um voluntarismo que legitima o governo de um Lula 2 e um Garotinho depois.
Alguns otimistas dizem: 'Não... este maremoto de mentiras nos dará uma fome de Verdades'!

ESSE TEXTO PRECISA E DEVE SE TRANSFORMAR NA MAIOR CORRENTE QUE A INTERNET JÁ VIU !!!


Depois disso, outro amigo, pela mesma lista, reproduzu outro e-mail denuncista, dessa vez contra o ministro Tarso Genro. Comentei o seguinte:


De novo: não quero entrar em polêmica desgastante e já faz um bom tempo que não olho mais o PT e o mundo da política partidária com romantismo ou/e visão maniqueísta. Mas, Xanduty, mais uma vez, estamos diante de mais uma "corrente" que pretende "denunciar", "alertar" sobre sacanagens - só que a mensagem demonstra que, por de trás dela, aquele que a fez, é um sacana manipulador, cheio de má-fé, e que usa da boa-fé de opositores do PT etc. para "disseminar" uma cafajestada travestida de "preocupação ética". Quer dar moral, denunciar a imoralidade, mas cometendo uma baita imoralidade ao jogar com dados, usando de parcialidades para parecer escandaloso. Vale tudo, então? Os fins justificam os meios? Me faz lembrar da parábola bíblica, onde Jesus fala em "sepulcros caiados", no Evangelho de Mateus.

É o que eu falei sobre aquela outra "corrente", dizendo que o Lula censurou o Jabor, numa grosseira manipulação, e que ninguém aqui comentou de volta...

Com as informações que tenho, que saíram na Folha de São Paulo e no Estadão, não dá para concluir da forma que o carinha faz, num evidente "anti-tarsismo". Não se trata de jornalismo, mas de pura propaganda difamatória. Merda querendo combater merda, só aumentando a merda mais ainda.

E apenas um detalhe, pra não nos cansarmos mais: todos os dados usados pelas reportagens estão disponíveis no Portal da Transparência, site da Controladoria-Geral da União, do Governo Federal...

I.

11 de jan de 2010

Sacanagens ambientais no Cinturão Verde


Anteontem, 09/01/2010, num passeio à tardinha aqui pelo bairro Bom Fim (ou Bonfim), Santa Cruz do Sul, no sopé do morro onde está o Parque da Santa Cruz, numa grande área (ainda) baldia, que não sei quem é o dono (mas é usada pela gurizada pra jogar bola, papear, cortar caminho etc.), fizeram uma escavação bem ao lado de um conjunto de árvores - uma espécie de capãozinho numa elevação do terreno -, atingindo as raízes. Qual o objetivo? Tudo indica que fizeram aquilo para produzir uma "queda natural" das árvores, "liberando" o espaço, apropriando o terreno para uma futura construção – sem ser acusado de derrubada ilegal...

A área, suspeito, já deve estar nas mãos de algum figurão imobiliário da cidade, preparando mais um "novo empreendimento" – um loteamento do tipo “Parque dos Pintassilgos”... Santa hipocrisia! Baita sacanagem, baita irresponsabilidade de quem faz isso; uma contravenção e irresponsabilidade com o coletivo. O terror é saber que, na verdade, pouca gente está disposta ao menos a reclamar um pouco...

Também há, nesta área, locais onde descarregam lixo perfeitamente recicláveis: latas e mais latas de tinta e outros produtos de pintura e construção, além de vários tipos de materiais não-orgânicos, cuja decomposição levará décadas ou séculos – enfeiando, contaminando e alterando o micro-ecossitema. Pergunto de novo, indignado: Por que fazem isso? Há locais para fazer esses depósitos. Por que atirá-los assim, irresponsavelmente?


E isso que observei aqui perto de casa é só uma "pequena" sacanagem perto de tantas outras... Bem triste...
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Mais um comentário "a ver":

Angra e o Cinturão Verde

Não são só os loteamentos populares santa-cruzenses, em bairros destinados a operários, têm ou trazem problemas ecológicos – como menciona uma recente reportagem (10 de janeiro de 2010) num jornal local a propósitos dos estragos das chuvas intensas. Loteamentos destinados a “classes sócio-econômicas mais privilegiadas” (leia-se “ricos”) podem estar colaborando – e muito! – para a degradação ambiental e graves acidentes. Vejam-se os loteamentos em sopés, encostas e até no alto dos morros e outras elevações da cidade, dentro do cinturão verde, área infelizmente cada vez mais desrespeitada – por indefinições e jogadas jurídicas. Mas disso pouco se fala. Por que será, hein?

A ocupação dessas áreas altera todo o ecossistema, incluindo o fluxo pluvial, ou seja, o escoamento. Quanto mais casas, edifícios, conjuntos residenciais, mais área “concretada”, mais alteração na absorção e despacho das águas. Com o tempo, poderemos nos surpreender vendo um fenômeno semelhante a Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, com deslizamentos e “áreas nobres” – que, aliás, já se observa: no mês passado (dezembro de 2009), um deslizamento na rua/estrada que sobe do centro até o Loteamento Europa, interrompeu o trânsito na via...

Todos somos responsáveis. Quem compra um terreno e constrói nesses lugares, também tem responsabilidades. As imobiliárias, os empreendedores imobiliários, os donos das áreas, muito mais ainda! No imediatismo, comete-se desrespeitos terríveis – para com a geração futura especialmente.

Desconfio que o lucro acaba fazendo as pessoas relevarem cuidados e evidentes efeitos de médio e longo prazo. Talvez – e se continuar assim vai ser inevitável – quando alguma desgraça maior acontecer (as menores já estão em curso), essa ente que lucrou muito, já estará longe ou mesmo em baixo da terra... Mas espero que haja justiça de alguma forma. Se não a “dos homens”, alguma outra, emanada dos cosmos tão belo e tão desconsiderado em sua grandeza inefável.

10 de jan de 2010

Argentina, Buenos Aires, final de novembro, início de dezembro de 2009



(De uma troca de e-mails no final do ano)

Que beleza!!! Amigos no show do AC/DC na Argentina. Inveja boa. Mas também não dá para reclamar tanto assim. Nesses acasos da vida (ou não tão acasos assim), estava eu em Buenos Aires nos dias anteriores a apresentação da banda-trilha da nossa fase heavy (de algum modo ela perdura até hoje)... Voltei de lá no dia 29. Via as propagandas pelas ruas, na TV, camisetas, bancas... Mas estava numa programação de trabalho, assistindo palestras e visitando universidades. Claro que dei várias bandas “extras” e acho que ao menos uma passada nos pontos de referência turística portenhos eu consegui dar - incluindo tomar um café no "Gran Cafe Tortoni" (aquele fundado em 1858, um dos primeiros da América), no planetário, no jardim botânico, na livraria Atheneu, viagem no subte (lembrando da canção do Vitor Ramil*), passeios no Porto Madeiro, Ricoleta, Palermo, Boca etc. Até dois tours por dentro da Casa Rosada, com "direito" a uma brevíssima estada no gabinete da Cristina Kirshner e no balcão de onde Evita discursava às massas.

Conheci, sempre na corrida, municipalidades ao redor de BA, cpital federal - La Matanza, San Martin, Luhan e Tigre. E os shows que conseguir ir eram mais “culturais”, digamos assim: tango, folclore argentino e dança flamenca contemporânea (onde entrava na trilha até Pink Floyd).

Uma pena não ter muitas parcerias pra fazer mais coisas fora do “menu turístico” padrão. Havia comigo, pelo estágio que estava fazendo, colegas do México, Costa Rica, República Dominicana e Colômbia – cada qual com seus planos particulares e suas turmas.

De qualquer jeito, fizemos alguns passeios juntos e mais uns dias seríamos os melhores amigos da vida. Meu compatriota, da universidade do recôncavo da Bahia (UFRB), foi o mais parceiro, e caminhamos muitas e muitas quadras untos (assim como a turma mexicana, no último sábado da estada).

Foi uma excelente experiência (vivência direta) e uma coleção de momentos novos e bacanas – além dos desagradáveis, é claro, que não tem como não fazer parte da coisa toda.


Quando falo dos lugares onde estive, até parece que fiquei uns 2 meses. Mas foram “solamente” nove dias. A hospedagem era num hotel bacana, na esquina da Cerrito com a Peron, duas quadras do famoso obelisco, símbolo de BA.

Como cheguei no sábado, 21, e voltei no domingo, 29, teve uns dias "livres", além do que a própria UNLaM (Universidade Nacional de La Matanza) nos levou durante a semana. Também à tardinha e noite eu saí por conta ou com algum camarada pra dar umas bandas, comer empanada y otras cositas más; até aquela "afamada" pizza "sabor único" (mussarela!) da Ugi's eu mandei bala (assim como o Sandoval - só que comi na própria pizzaria, que é uma experiência antropológica ainda mais radicalizada...), e picolé da Arcor - o tal deguste de comestíveis pops que o Agladis é especialista.

Pouca grana, pouco tempo, mas muita disposição pra conhecer as coisas. É claro que o tio até em passeata de "piqueteiros" se meteu - um protesto contra a influência da Igreja Católica no governo, condenando radicalmente o aborto, entre outras formas de visão machistóide de um cristianismo catatônico.


Gostei muito de Buenos Aires e dos argentinos/as em geral. Sinceramente, to me lixando (parodiando o deputado local) pra soberbas – que dizem caracterizar em especial os que moram em BA. Se a gente procurar, vai achar essa soberba, sim. Aliás, uma soberba que muita gauchada está embebida até a ponta do pau, se achando – ridiculamente, me parece – o sal da terra brasileira...

Além disso, boludo, há as diferenças regionais - de cultura, paisagens, formação étnica etc. Em fevereiro passei uns dias em Misiones (como já havia contado), que é, como tu sabes, uma província bem diferente do que a de BA, onde há até uma alemoada em cidadezinhas minúsculas, convivendo com guaranis que vivem em aldeamentos próximos.


Na Ugi’s, eu pedi 1/4 de pizza e foi uma pechincha. Mas o refri custou quase o dobro (só havia a opção de botijas de 500ml e nada de suco ou outra "frescura"). O atendimento dos caras também era bem sem gentilezas, quase chulo. É pegar ou largar! Achei estranho os caras ficarem numas mesas altas ou encostados na parede, comendo direto na forma, sem talheres, só com uns guardanapos de papel vagabundo que pareciam cortados a facão. O ambiente todo é tosco. E os cartazes na parede com os preços pareciam feitos no Word pelo dono.

Sobre o Café Tortoni, tem mesmo fila pra entrar lá em certos horários. Chegamos, mas logo entramos. Era começo da noite e toda a Avenida de Mayo é uma beleza de gentes e prédios. Há n café uma “aura sagrada". Balcões, mármores, pilares, rococós, mesas, luzes, quadros, fotos, xícaras. Vendem souvenires - como a própria xícara! E vi gente fotografando o banheiro, tchê!


*Subte

Vitor Ramil



(canção do CD Tambong)

Yo dejo el sol detrás de mí
Y bajo hondo en la ciudad
La lengua que hablan por aqui
Es toda hierro y oscuridad
Del tunel llega una luz
La luna me viene a buscar

Hay tanta gente en el vagón
Todos me miran sin parar
Sus ojos sueñan mi visión
¿Que hago yo en este lugar?
El tunel me hace comprender
La luna me puede llevar

Sur
Subtemoon
Subtedream
Yo viajo en el Subtesur
Yo viajo en el Subtemí

Yo veo el tiempo en la pared
Que pasa y siempre queda allá
Yo veo la vida en el tren
Inmóvil puedo en él viajar
El tunel negro es la razón
La luna me hace delirar

Sur
Subtemoon
Subtedream
Yo viajo en el SubtesurYo viajo en el Subtemí

9 de jan de 2010

Merchandising

Semana passada (hoje é 03/01/2010) fui ver o blockbusters mela-cuecas Lua Nova. Na falta de maiores atrativos, prestei atenção nas inserções, que chamamos merchandising ou “publicidade dissimulada”, diria eu. Notei que ao menos quatro empresas tiveram aparições diretas de suas marcas e produtos: Nissan (o automóvel usado pelo gostosão Eduard), Cannon (a impressora usada pela assediada Bella), Apple (um notebook também usada pela mocinha), Virgin (o avião que leva Bella e Alice para a Itália [não está aí, no país onde mora a família de nobres vampiros Volturi, mais uma publicidade subliminar?]) e Ferrari (automóvel esportivo usado pelas duas heroínas da película, percorrendo em alta velocidade estradas italianas [olha aí!]).

Imagino que o filme “se pagou” só com essas inserções. E acho que – em filmes carregados de charme e sucesso já garantidos – é uma das formas mais eficazes de afirmar uma marca no longo prazo.

O lance é quase chegar a subliminariedade. Quase, eu falei. A inserção deve ser sutil, mas perceptível, sem que pareça proposital. É aquilo do “sem querer querendo”, do Chaves...

Enquanto a propaganda subliminar atinge camadas de percepção humana sub ou inconscientes, pelo limite da percepção (freqüência de sons e imagens), o merchandising é perceptível – um elemento colocado de forma a compor a cena sem ressaltá-lo, quer dizer, um componente do cenário na dramaturgia.

Pode haver merchandising através de falas e gestos de personagens, como em Sim, Senhor, com o protagonista interpretado por Jim Carrey dizendo, numa situação humorística, onde estava super animado por um refrigerante energético. Ele dizia “Red Bulll, Red Bull, Red Bull!”

Há também um merchandising de produto ou serviço de forma mais geral, bancado, suponho, por alguma corporação. Exemplo cinematográfico também atualíssimo, no filme que olhei ontem: Avatar. A personagem “Dra. Augustine”, interpretada por Sigourney Weaver, é uma fumante e aparece duas ou três vezes com seu cigarro, inclusive pedindo impacientemente o maço. Em tempos de antitabagismo, qual a razão de colocar-se uma cientista – e botânica (relacionada à natureza!) – fumando? O cigarro compõe a personalidade “turrona”, mas, no fundo, sensível e chave na trama pelo lado dos “mocinhos” da história. Não é perfeita como garota-propaganda de um produto cada vez mais marginalizado? Posiciona-se o cigarro como algo consumido por gente “rebelde”, líder (ela chefia o laboratório em Pandora), inteligente, forte e ativa (Augustine, quando está incorporada em seu avatar, aparece praticando esportes e comandando a equipe de incorporados em seus treinamentos nos seus “cavalos” – para usar uma linguagem da Umbanda).

Para ter um funcionamento adequado – concluindo –, todo o merchandising, deve ser um tanto periférico, mostrado ou mencionado num segundo ou terceiro plano, digamos assim. O cigarro consumido por Augustine e o automóvel dirigido por Eduard são elementos da cena, apresentados de forma positiva, associados a situações significativas, por protagonistas “heróicos”.

Ter a consciência de que isso está acontecendo no filme (ou outra obra, até mesmo quadrinhos, romances e novelas televisivas) é uma forma de ficarmos mais “imunizados” aos apelos comerciais, moldadores das personalidades, tão eficientemente inseridos nos filmes – peças da “indústria cultural”, por definição, formadoras de nossa psique através do entretenimento.


***De forma grosseira, podemos dizer que merchandising se refere a técnicas para o posicionamento físico das mercadorias, de forma a impulsionar as vendas. No Brasil, o termo designa também a inserção de produtos, logomarcas ou outras formas de divulgação comercial em filmes, programas de TV etc.

2 de jan de 2010

Dois mil e dez


Uma das mensagens de fim de ano que deixei a uns amigos numa lista. Vai mais pelo poema do Quintana, que copiei do livro Mario Quintana: Poeta Gaúcho e Universal (2007), um ensaio muito bom analisando poemas em conjunto com sua biografia, escrita por outro poeta (e professor afamado), Armindo Trevisan.
Na foto, o poeta, nos anos 1990, pousa no quarto do seu hotel em seu trabalho criativo.
Segue a mensagenzita e o poema:

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Belezura! A toda comunidade, desejos que 2010, "O ano em que faremos contato", xege um baita ano - e que avancemos em nossas qualificações para fazer das nossas existências uma obra à altura do belíssimo - até pelo seu intrasponível significado - mistério que nos envolve (contem e é contido), mesmo que às vezes toldado por tantas picuinhas que nos deprimem e nos fazem desperdiçar a preciosidade fugaz de cada momento.

Abraços do velho bardo da meia tigela,

vosso servo,
I.

***E aproveitando clima de melancolia natalino, vai um poema do Mário, aquele, o Quintana:


Recordo ainda... E nada mais importa...
Aqueles dias de luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...

Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança...

Estrada afora após segui... Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai:

Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente!...

(Soneto VIII, de A Rua dos Cataventos)