29 de mar de 2011

Chá com leite

Sabe quando tu descobres um sabor delicioso em alguma bebida ou comida jamais provada? Minha grata surpresa foi maior porque é algo muito simples e sempre esteve ali, à espera de “testar”.

Por muito tempo tomei chá preto – puro e sem açúcar. Ótimo para matar a sede, mesmo que bem quente. Ouvia falar que os ingleses tomavam o “legítimo chá” sem ou com muito pouco açúcar, mas com um dedinho de leite.

Mesmo que eu goste de café com leite (sempre bem mais café do que leite – e sem açúcar), me parecia – mesmo com tanta similaridade entre as beberragens – indigesto e intragável a mistura de chá preto e leite. (Há também o famoso mate com leite, que muitos adoram, despejando no “chimarrão” o leite quente no lugar da água.)

Mas eis que, umas três semanas atrás, por uma súbita curiosidade e “coragem”, fiz a mistura. Após aprontar o meu “clássico” chá – derramando água quase fervente em cima das folhas picada do chá (pego o sachê da caixinha e corto-o, liberando o conteúdo no fundo da xícara) –, “inventei” de colocar um pouco de leite frio direto na xícara, completando a quantidade até a bordo (1/10 de leite, mais ou menos). Aguardei uns instantes e... sorvi... hummm... Que delícia, tchê! Aveludado... Aquele amargo residual em cada gole da infusão pura, que parece sentir-se no céu da boca, desaparece, e o sabor do chá ganha uma espécie de fofura – a gordura e açúcares do leite parece que quebram, amolecem ou diluem o agudo do amargor do chá e produzem uma doçura e consistência especiais.


Até mesmo a cor fica bonita: literalmente leitosa, com pedacinhos de folha flutuando no alto (basta assoprar e elas não atrapalham, sendo que a grande parte do picado vai se depositando no fundo da xícara).

Estou testando “metodologias”: diferentes proporções de leite e chá; tempo da cocção das folhas na água quente; colocar leite antes da água, leite depois da água etc. Também estou pesquisando a “tradição do chá inglês” - e que na verdade começa lá na China, Japão e, depois, vem por Portugal (com colônias no oriente no começo do século XVI) para então passar para o restante da Europa, incluindo a Inglaterra, onde uma rainha teria definido o "five o'clock tea".


Assim é que me tornei um fã do chá “tipicamente inglês”. Imagino que deva ficar ainda melhor com marcas e tipos de chá preto mais sofisticadas (tomo as mais baratas, que existem em qualquer super). Também quero experimentar com o creme (seria o mesmo que “nata” ou creme de leite?).



*Na foto, o revolucionário pacifista Gandhi toma chá com um tal Lorde Mountbatten.

**Há o chá bebido pelos monges budistas do Tibet – e de outros lugares também. Aliás, parece que naquela região do oriente, trata-se de uma bebida básica na dieta da população. Ao invés do leite, colocam manteiga na infusão, produzindo um líquido mais gorduroso, que além de aquecer, alimenta, valendo como uma refeição. Dizem que, pela cafeína presente no chá, é revigorante e ajuda os monges a se manterem coim a mente alerta... Eis aí a isnpiração para uma nova experiência: chá preto com um cubinho de manteiga...

***Há, ainda, o "chai" (diz-se "tchai), o "chá indiano com especiarias", onde entra o leite. As receitas que vi, são com leite em pó - e leva açúcar, canela, gengibre, cardamomo e "até" chá preto... Essa bebida ficou famosa no Brasil por conta da novela da Globo Caminho das Índias. Ainda não provei.

****Outro dia lembrei de uma mistura que faço há bem mais tempo e que muitos viram a cara... Suco de laranja ou bergamota com leite frio. Eu acho sensacional. Espreme-se uma ou duas laranjas no copo e deita-se o leite frio diretamente, até a borda. Imediatamente, a laranja “quebra” o leite (“azeda”, diria a minha avó) e a mistura torna-se uma espécie de iogurte. A textura e a coloração são muito bacanas e dá uma sensação de frescor acridoce, além de uma salubridade nutritiva – bem maior que tomar o leite puro ou com chocolate. “Aprendi” isso inspirado num grande festival de gastronomia promovido por “hare-krishnas” de PoA. Algo muito simples e rápido de fazer.

22 de mar de 2011

Nossa animalidade (sobre o sacrifício de animais em rituais religiosos)


Estima-se que cerca de 50 mil pessoas eram sacrificadas (poderia-se dizer, também, assassinadas barbaramente) pelos Astecas no México até o domínio espanhol arrasar com esse império indígena na América Central no início do século XVI. Incluía-se na contabilidade macabra, jovens donzelas e crianças pequenas – justificando-se suas mortes por conta das lágrimas e dores, que seriam mais puras e, assim, de maior agrado a certas divindades...

Toda esta matança ritual, onde se arrancava o coração da pessoa ainda viva – sustentada por guerras com povos vizinhos e outras querelas, abastecendo o insaciável patíbulo – é perfeitamente compreensível dentro da organização social e religiosa asteca, mas, obviamente, visto com ojeriza por quem não compartilhava daquelas crenças. Até os europeus – embora toda a carnificina implicadas no domínio das terras e riquezas arrancadas das Américas – se escandalizavam com a sangueira. (Obs.: Sangueira essa superada nos rituais cristão pelo canibalismo e vampirismo metafóricos, contidos no ato de comer o corpo e beber o sangue de Jesus na forma da hóstia e do vinho consagrados; Cristo teria sido o último humano a ser sacrificado pela salvação do mundo, poupando outras vidas humanas.)


Vindo para os nossos dias, podemos dizer que algo semelhante aos “sacrifícios” astecas acontece com os animais não-humanos em diversos cultos religiosos ainda praticados pelo mundo. Assim como um grupo humano – caso dos mexicanos pré-colombianos – se arrogava o direito de tirar a vida de uma pessoa de outro grupo ou de outra classe social, assim também se submete à morte os animais não-humanos em nome de crenças supremacistas dentro do reino animal. Nós, mamíferos bípedes com o polegar opositor, nos achamos “o ó do borogodó” do planeta; damos a nós mesmo, em nosso incontido egocentrismo cósmico, o direito de dispor da vida de outros mamíferos, e também de aves, répteis, peixes, para obtermos a boa disposição de divindades. Ou seja, obrigamos outros seres a compartilhar “na marra” – e ao preço de sua dor, desespero, fraqueza e, por fim, extinção –, ideias religiosas particulares ao bicho homem.

Por conta disso, sou favorável a abolição de sacrifícios (alguns chamam eufemisticamente de “sacralização” ao invés de “morte”) de animais por qualquer tipo de ritual. Já acho horripilante a matança para fins de alimentação (por isso procuro seguir uma dieta vegetariana), que dirá para satisfazer crenças pessoais ou de grupos. Podemos transcender isso e encontrar formas de contentar deuses, divindades, potências – ou o que seja – de uma forma menos covarde, menos dolorosa a seres inocentes e alheios às nossas teologias.

Loteamentos em Linha Santa Cruz


Empreiteiras, agentes imobiliários, proprietários de terras, lojas de materiais de construção, entre outros, estão ganhando um bom dinheiro com os loteamentos em Linha Santa Cruz. A cada mês, surge um novo ou uma nova expansão de terrenos.

Mas me pergunto: e a infra-estrutura urbana e cuidados ambientais para tudo isso? Onde ficam? Não vejo muita coisa – eu que sou morador do bairro...

Só para citar algo evidente: a atrofia na via principal de acesso ao bairro. Filas de carros esperam para atravessar na ida e na vinda no “Trevo do Fritz e da Frida” em horários de pico. Como ficará daqui um ano, com a vinda de mais centenas de famílias e seus veículos? Intransitável.

E coisas que nem aparecem muito? Será que um eficiente sistema de esgoto e seu tratamento está sendo providenciado? Vamos poluir o solo e mananciais de água da região, mesmo sabendo de todas as implicações na saúde pública, bem estar e manutenção do equilíbrio ecossistêmico?

Áreas públicas de lazer? Existem? Não, não há área alguma para isso! Nem um mísera pracinha... Tudo isso em uma região rica em possibilidades, onde parques de uso comunitário e preservação da flora e fauna poderia ser exemplo de sociabilidade e convivência mais harmônica entre humanos e seu entorno natural.

Onde estão as responsabilidades, os “ônus” para tantos “bônus”? Não se pode pensar só em ganhar o dinheiro; oferecer terrenos e casas sem prever as consequências de uma migração populacional substancial para uma área sem uma infra-estrutura adequada tem somente um nome, já que alegar ignorância não passa de cretinice: irresponsabilidade. Os órgãos competentes precisam exigir e fiscalizar, para que depois a coisa não estoure e, mais uma vez, os contribuintes tenham que arcar com a prevaricação, imprevidência e ganância de uns – além de prejuízos futuros irremediáveis.

***Enquanto escrevo isso, ouço as máquinas abrindo ruas e definindo lotes numa antiga área rural, onde ainda restam nesgas de mata nativa e se adivinham onde estavam o potreiro e as lavouras.

1 de mar de 2011

Foi-se o Moacir

Confesso que Scliar nunca foi um dos meus escritores prediletos. Li poucos romances completos dele e estou me propondo a ler obras deixadas pra trás (O O exército de um homem só, por exemplo). Mas o lia bastante pelas crônicas, principalmente as publicadas em todos os cantos de Zero Hora. Mesmo as crônicas de jornal, preferia a de outros caras, embora admirando suas informações e raciocínios. Às vezes o achava por demais "em cima do muro", zeloso em "não ferir suscetibilidades". Não tenho dúvida que é uma perda de um baita intelectual brasileiro e gente boa, como pude comprovar "ao vivo" nas vezes que o assisti palestrando em eventos.

Aquela desconfiança do “forasteiro”...


Pouca gente “forasteira” deixa de notar o ar desconfiado e especulativo de boa parte das pessoas que tradicionalmente, desde gerações, residem em comunidades de majoritária descendência germânica. Mesmo eu, que reputo isso a um comportamento “atávico” ou típico de pequenas comunidades de qualquer lugar ou grupo étnico, e não a alguma “antipatia própria do alemão”, estou me sentindo obrigado a reformular (em parte, ao menos) minhas ponderações e compreender com – a desconfiança, o pé atrás, a má vontade, a cara de poucos amigos – algo gerado por deliberações explícitas contra “o de fora”, construído historicamente, num processo desencadeado por organizações religiosas, no caso, a Igreja Católica e, em específico, a congregação jesuítica de extração alemã estabelecida no sul do Brasil no início do século XX.

Estou falando isso a partir da leitura do artigo – mas não só esse – “O Projeto de Restauração Católica no sul do Brasil: poder, identidade e imprensa”, da historiadora e professora Neli Schäfer Tesch da Silva, publicado numa obra muito interessante sobre o “Pe. Balduino Rambo - pluralidade na unidade: memória, religião, ciência e cultura” (Editora Unisionos, 2007).

No artigo, que constitui um capítulo da publicação supracitada, a autora, a partir dos estudos da sua tese de doutorado, constata que havia um grande esforço por parte desses jesuítas à época em manter a “pureza germânico-católica” das comunidades de descendentes de imigrantes. Em uma das revistas usadas como meio de formação e propaganda, a Sankt Paulus, no ano de 1926, é dito (p.92) que, nas “regras de colonização de Salto Pirapó”, estava “que os colonizadores devem comprometer-se a ‘vender a terra somente para pessoas católicas que falem a língua alemã’”. Em 1928, o sacerdote jesuíta J. E. Rick escreveu: “O material humano dos colonos é de uma só casta ou espécie: compõe-se ele de católicos alemães do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Prova notoriamente a experiência, que apenas tais colônias dão certo, e isto para longos tempos”.

Imagine-se: se os casamentos “mistos” entre católicos e protestantes teuto-descendentes já eram detestados (p. 91, primeira citação) e se determinava aos sacerdotes exortarem veementemente contra tal “perversão”, o que se pensaria da união de “alemães” com pessoas de etnias não-brancas (afrodescendentes, por exemplo) e religiões não-cristãs (judeus, por exemplos)!?

Assim, a deterioração da comunidade, do seu progresso e bem estar, aconteceria por conta da “mistura” de elementos étnicos e religiosos no seio da pureza germânica e católica, que deve ser preservada com todos os esforços. Disseminava-se uma ideologia, através de revistas, livros, folhetos, palestras, congressos, sermões e visitas do padre. Isso foi feito com tal efetividade, aproveitando-se da “máquina” da Igreja, que impregnou o pensamento das populações de comunidades de teuto-descendentes, mantendo-se ativa a “ojeriza”, tendo passado décadas e gerações; mesmo quando não mais se admitem ideias de pureza racial e religiosa, que tantas desgraças já produziu, está lá ainda germes da “não-mestiçagem”, que bebia de teóricos da estirpe de Lombroso e alimentou posturas e regimes intolerantes e genocidas, caso do governo alemão nos anos de 1930/40, com amplo apoio popular e adeptos e propagandistas até mesmo aqui em nossos pagos – e isso faz cerca de 65 anos apenas...

A partir dos anos pós-guerra, a deliberada propaganda pelo fechamento étnico e religioso – no caso, “alemão” e católico – se arrefeceu por diversas razões, entre elas a própria derrota amarga e vexatória num segundo confronto mundial entre países, desta vez produzindo-se, entre outras desgraças – “graças” ao arianismo, ao antissemitismo e outras visões supremacistas –, a escravização, tortura e assassinato massivo e industrial de “sub-raças” e outros “indesejáveis” da humanidade.

Alemanha faminta


Há uma novela do Stephen King publicado no seu livro Quatro Estações onde um menino prototípico norte-americano, loiro, saudável, inteligente, ativo, curioso, classe média envolve-se com um ex-comandante nazista que está tentando passar despercebido, vivendo pacatamente numa cidade também tipicamente americana. A relação vai deteriorando a vida do jovem; na medida em que ele vai crescendo, seus piores impulsos vão lhe sugando inclusive a sanidade mental, acabando tudo numa grande tragédia. Mas o que interessa no momento é que na história de King, o personagem nazi, já um velho senhor naquela altura (anos de 1970), usava nos campos de concentração (e extermínio) técnicas para “persuasão” de judeus, jogando com a fome imensa que debilitava, deprimia e punha os presos num permanente estado de desespero por comida; a promessa de uma refeição levava as pessoas a se submeterem de uma maneira aviltante, delatando companheiros de primeira hora; uma canalhice de primeira grandeza, nojenta.


Já para o término da Segunda Guerra, a população alemã – entre outros países envolvidos direta ou indiretamente na guerra (foi o caso da Índia) – estava a passar fome pelo desabastecimento, provocado pelos óbvios estragos na produção, beneficiamento e distribuição agrícolas, entre outras carência que atingiram milhões de pessoas como sub-produtos violentos de uma guerra já por demais violenta.

Mesmo com toda a ojeriza à nação alemã, associada – mais uma vez – a arrogância e barbarismos cometidos em nome de seu “direito” de dominar a humanidade por sua auto-suposta superioridade moral e racial, mobilizações pelo mundo todo foram feitas para salvar a Alemanha de uma desgraça ainda maior. No Rio Grande do Sul, nasceu uma organização, o Comitê de Socorro à Europa Faminta (SEF), que, apesar do termo mais geral, estava concentrada em alcançar alimentos e outros subsídios de sobrevivência à Alemanha exclusivamente. A iniciativa e liderança partiu de notórios germanófilos/germanistas, caso do gaúcho Pe. Balduíno Rambo, jesuíta, professor e pesquisador de geografia e botânica, além de liderança comunitária, escritor, enfim, um educador, cientista e intelectual engajado na sociedade gaúcha dos anos de 1930 até sua morte em 1961.

É interessante notar-se que a derrocada do governo alemão, capitaneado por Hitler, após tantas afrontas e sandices, acaba por receber a solidariedade – mesmo que pelo empenho de teuto-descendentes – de um país de mestiços e negros, antes colocados como degenerados, sub-humanos, passíveis de banimento.

Ao mesmo tempo, parece que não ocorreu a SEF socorrer populações não-alemãs atingidas igualmente de maneira terrível. Em meio a celeumas internas entre católicos e protestantes, a massa de judeus famintos emigrados, mesmo que alemães de nascimentos, parece que não foram considerados. Assim é que, num esforço “solidário” pós-guerra, o antissemitismo e outros preconceitos continuaram vigorando, demonstrando que o Ovo da Serpente continuava em seu ninho...


SURDINA

Toda a mobilização da SEF era feita à surdina. Sabiam que estavam lidando com rejeições. Rejeição a ajuda à população de um país por hora detestado, culpabilizado por uma guerra horrível e ainda perdedores humilhados do conflito. Rejeição, sobretudo, porque o Brasil, o Rio Grande do Sul vivia uma crise de carestia e desabastecimento de alimentos, levando a revoltas, incluindo Novo Hamburgo, “terra de alemão”, onde o tumulto popular envolvia a falta de farinha de trigo, implicando a demissão de autoridades municipais. Como se poderia ajudar os famintos da Alemanha quando, além de tudo, aqui mesmo na pátria brasileira tudo estava um caos – por conta, também, da guerra recém finda, onde milhares de brasileiros foram mortos pela forças armadas alemãs!

Padres, pastores e outras personalidades germanistas se empenhavam em minorar sofrimentos no além-mar, esforçando-se para reerguer um país há pouco inimigo e ameaçador a soberania de outras nações e francamente hostis a etnias “não-arianas” (além de buscar facilitar a deportação de cidadãos brasileiros retidos na Alemanha – possivelmente, entre eles, colaboracionistas ao regime nazista). Não era uma tarefa fácil, tranquila. E esses homens sabiam disso e tiveram perspicácia suficientes para agir com descrição e “jogo de cintura” (católicos e luteranos juntos, presença de lideranças luso-brasileiras, politicagens etc.), começando com a própria denominação apelativa e se referindo a toda a Europa, de Portugal a Áustria, mas, na prática e intencionalmente, dedicada exclusivamente à população alemã, como informa o artigo. Até o final dos anos 1940, conseguiram embarcar muita coisa, milhares de toneladas em alimentos e outros artigos como roupas e calçados, o que demonstra que obtiveram sucesso.

Hoje temos gente “bem posicionada” criticando o governo brasileiro por ajuda e perdão de dívidas a países subdesenvolvidos na África. Sem considerar a solidariedade entre povos (uma recíproca), ligações históricas com o continente africano (quase 400 anos de uso do trabalho escravo) e outros tipos de retornos ao Brasil, com o fortalecimento de vínculos políticos e econômicos com as nações “auxiliadas”; sem considerar tudo isso, tenho certeza que a mesma gente que faz tal crítica ao “paternalismo” e “incoerência” brasileira (quando temos tantos problemas sociais por aqui) apoiariam com entusiasmo a iniciativa de ajuda aos alemães em petição de miséria no pós-guerra – e assim o Brasil mais uma vez se tornando a tábua de salvação de milhares de famílias germânicas, como aconteceu com as assentadas em projetos de colonização estatais e particulares, como houve as centenas aqui no Vale do Rio Pardo. Óbvio que isso teve “retorno” ao Brasil também. Assim como há direta e indiretamente com o ajuda externa a países hoje em grandes dificuldades – mesmo que o Brasil tenha problemas, como outrora tinha e mesmo assim, mostrou-se solidário.


GRATIDÃO...

Pe. Rambo e os intelectuais orgânicos da germanidade e outros difusores desta ideologia argumentavam que – ainda mais numa situação de penúria da Alemanha pós-guerra (1945) – havia uma “dívida de gratidão” dos teuto-descendentes no Brasil a ser resgatada. Forçava um elo com a designada “pátria-mãe”. Mas quando refletimos que, na realidade, a esmagadora maioria dos imigrantes foi praticamente defenestrada, expurgada, expulsa economicamente de suas regiões por conta da concentração de renda, de terras, de bens de produção na mão de nobres e grandes proprietários rurais e burgueses, seria mais adequado se dizer que a Alemanha agia não como uma boa mãe, e sim como um padastro violento, egoísta, que não considerava autênticos filhos aqueles pobres coitados; para a sua segurança, era melhor vê-los pelas costas, pois nada mais detestável que reclamações, revoltas e outras ameaças as suas benesses de patrão... Passados anos, depois dos dialetos e hábitos profundamente transformados pelo convívio em outra nação, com outros povos locais e estrangeiros (outros imigrantes), então vem germanófilos, quase sempre privilegiados economicamente (e até viajados para a Alemanha) pedir reverência ao padastro! Por favor...

Em nome de uma germanidade postiça, patrocinada por ideólogos vivendo longe do cotidiano do trabalhador urbano ou rural teuto-descendente remediado ou empobrecido (veja-se o número de pessoas com sobrenomes tipicamente germânicos entre os sem-terras e assentados da reforma agrária, por exemplo), se busca produzir uma identidade ligada com uma Alemanha de hoje ou de um passado utópico de onde teriam partido os “intrépidos”. Enquanto isso, a riqueza etno-cultural da teuto-brasilidade perverte-se em oktoberfestes e aprendizado do alemão padrão – jamais falado por antepassados do século XIX (se fosse um estudo dos dialetos, sua evolução na interação com outros dialetos germânicos e o Português, seria excelente, mas aprender o alemão contemporâneo, qual é o objetivo? Rememorar e homenagear quem jamais falou tal língua?). Por favor...


SIMPATIAS

Pe. Rambo parece que além de um erudito, pesquisidor de botânica e fisionomia geográfica do Rio Grande do Sul, foi um infatigável germanófilo e germanista, crente na superioridade dos povos germânicos e numa espécie de missão divina a ser desempenhada pela Alemanha no mundo e que ele acreditava presenciar antes do final da sua vida. Rambo, se não aderiu diretamente ao nazismo, parece ter nutrido uma simpatia ao regime de Hitler; tinha uma expectativa positiva pelo regime liderado por Hitler e manifestou um pesar pela derrocada do nazismo, mas anunciando uma esperança profética de, no futuro, a Alemanha mostrar à humanidade a que veio...


FLORESTA

Ao mesmo tempo, Rambo amava as florestas. Visitou parques nos EUA e foi por sua iniciativa que o Aparados da Cerra se tornou uma realidade no RS. Em seu romantismo, olhava as árvores como seres sagrados, presentes na história do mundo, merecendo reverência. A atmosfera em meio às matas formava um templo propício a se sentir a "presença de Deus".