1 de mar de 2011

Aquela desconfiança do “forasteiro”...


Pouca gente “forasteira” deixa de notar o ar desconfiado e especulativo de boa parte das pessoas que tradicionalmente, desde gerações, residem em comunidades de majoritária descendência germânica. Mesmo eu, que reputo isso a um comportamento “atávico” ou típico de pequenas comunidades de qualquer lugar ou grupo étnico, e não a alguma “antipatia própria do alemão”, estou me sentindo obrigado a reformular (em parte, ao menos) minhas ponderações e compreender com – a desconfiança, o pé atrás, a má vontade, a cara de poucos amigos – algo gerado por deliberações explícitas contra “o de fora”, construído historicamente, num processo desencadeado por organizações religiosas, no caso, a Igreja Católica e, em específico, a congregação jesuítica de extração alemã estabelecida no sul do Brasil no início do século XX.

Estou falando isso a partir da leitura do artigo – mas não só esse – “O Projeto de Restauração Católica no sul do Brasil: poder, identidade e imprensa”, da historiadora e professora Neli Schäfer Tesch da Silva, publicado numa obra muito interessante sobre o “Pe. Balduino Rambo - pluralidade na unidade: memória, religião, ciência e cultura” (Editora Unisionos, 2007).

No artigo, que constitui um capítulo da publicação supracitada, a autora, a partir dos estudos da sua tese de doutorado, constata que havia um grande esforço por parte desses jesuítas à época em manter a “pureza germânico-católica” das comunidades de descendentes de imigrantes. Em uma das revistas usadas como meio de formação e propaganda, a Sankt Paulus, no ano de 1926, é dito (p.92) que, nas “regras de colonização de Salto Pirapó”, estava “que os colonizadores devem comprometer-se a ‘vender a terra somente para pessoas católicas que falem a língua alemã’”. Em 1928, o sacerdote jesuíta J. E. Rick escreveu: “O material humano dos colonos é de uma só casta ou espécie: compõe-se ele de católicos alemães do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Prova notoriamente a experiência, que apenas tais colônias dão certo, e isto para longos tempos”.

Imagine-se: se os casamentos “mistos” entre católicos e protestantes teuto-descendentes já eram detestados (p. 91, primeira citação) e se determinava aos sacerdotes exortarem veementemente contra tal “perversão”, o que se pensaria da união de “alemães” com pessoas de etnias não-brancas (afrodescendentes, por exemplo) e religiões não-cristãs (judeus, por exemplos)!?

Assim, a deterioração da comunidade, do seu progresso e bem estar, aconteceria por conta da “mistura” de elementos étnicos e religiosos no seio da pureza germânica e católica, que deve ser preservada com todos os esforços. Disseminava-se uma ideologia, através de revistas, livros, folhetos, palestras, congressos, sermões e visitas do padre. Isso foi feito com tal efetividade, aproveitando-se da “máquina” da Igreja, que impregnou o pensamento das populações de comunidades de teuto-descendentes, mantendo-se ativa a “ojeriza”, tendo passado décadas e gerações; mesmo quando não mais se admitem ideias de pureza racial e religiosa, que tantas desgraças já produziu, está lá ainda germes da “não-mestiçagem”, que bebia de teóricos da estirpe de Lombroso e alimentou posturas e regimes intolerantes e genocidas, caso do governo alemão nos anos de 1930/40, com amplo apoio popular e adeptos e propagandistas até mesmo aqui em nossos pagos – e isso faz cerca de 65 anos apenas...

A partir dos anos pós-guerra, a deliberada propaganda pelo fechamento étnico e religioso – no caso, “alemão” e católico – se arrefeceu por diversas razões, entre elas a própria derrota amarga e vexatória num segundo confronto mundial entre países, desta vez produzindo-se, entre outras desgraças – “graças” ao arianismo, ao antissemitismo e outras visões supremacistas –, a escravização, tortura e assassinato massivo e industrial de “sub-raças” e outros “indesejáveis” da humanidade.

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