16 de mai de 2011

Choperias e drogarias


Interessante que, na contramão de críticas ao álcool e campanhas contra o seu consumo, tenham surgido tantas choperias por este Brasil afora. Em Santa Cruz, faz poucos dias, mais uma choperia foi inaugurada (devemos ter umas cinco, fora outros locais que têm máquinas de chope). Ou seja, locais onde a principal atividade, por onde tudo gira, é o consumo de bebida alcoólica, no caso, o milenar fermentado amarguento com poderes enebriantes servido em copos e canecos. O que, por um lado, é condenado – nas restrições e avisos de cuidados à saúde –, por outro – na profusão de choperias apresentadas como locais aprazíveis –, recebe um e status de boa sociabilidade, muita diversão e relax; são locais requintados, charmosos, badalados, de grande afluxo de pessoas – pessoas descoladas, jovens ou de espírito jovem, a fim de uma conversa espirituosa e flertes diversos; são dessas típicas instituições públicas e privadas – como as praças, avenidas, igrejas, shoppings, salões de baile – onde se exercita o atávico hábito do encontro social, como já o foram, mais intensa e antigamente, as (num exemplo mais próximo) cafeterias e as casas de chás. Obs.: talvez o exemplo mais próximo ainda seja das antigas casas onde se consumia o ópio (segue um complemento abaixo sobre isso).

Ocorre que o chope, como bebida, não é comparável – assim como a cerveja – ao um pingado ou uma taça de chá preto. O efeito alterador dos sentidos e da consciência é bem diferente do estímulo da cafeína. Pode ser fatal. Se não no curto prazo – quando o cara perde a direção no automóvel e se espatifa num poste (quando não atropela pedestres) ou se envolve em uma discussão tão besta quanto sangrenta –, no longo prazo mata seguidamente, quando aparecem doenças decorrentes, entre elas, a cirrose hepática e a terrível dependência química. Entre o tomar um chopinho com os amigos e a decadência do alcoolismo tem um “pulo do gato” bem sutil, indefinível, sorrateiro...


É sintomático que choperias e farmácias estejam em proliferação pelas cidade. Somos uma sociedade que precisa de drogas – incluindo especialmente (e massivamente) as chamadas legalizadas ou lícitas, como os calmantes e as pilsen.

*Eu não deixo de frequentar drogarias e choperias. Há remédios indispensáveis e não é ruim o cara tomar um chope e bater um papo. Minha preocupação é com a banalização do remediar-se e do embebedar-se, fazendo-se isso costumeiramente, como se fosse “natural”, apoiando-se numa propaganda intensa e numa disponibilidade assediante.


**Achei uma ótima síntese de informações para traçar um paralelo entre o consumo de álcool e do ópio, e das choperias e casas de ópio. Retirei do site do Instituto de Medicina Social e de Criminologia de São Paulo (IMESC), órgão do governo do Estado de São Paulo. Vai aí:

Ópio

Aspectos históricos e culturais

O ópio ("suco", em grego) é obtido a partir de um líquido leitoso da cápsula verde da papoula (Papaver somniferum), planta que cresce naturalmente na Ásia. É também chamada de "dormideira", sendo originária do Mediterrâneo e Oriente Médio.

Quando seco, o suco passa a se chamar pó de ópio. O ópio é apresentado em barras de cor marrom e gosto amargo que podem ser reduzidas a pó. Quando aquecido, produz um vapor amarelo que é inalado. Pode ser dissolvido na boca ou ingerido como chá.

A papoula é legalmente cultivada, servindo de fonte de matéria-prima a laboratórios farmacêuticos. Contudo, em sua maioria, as plantações são ilegais e destinam sua produção ao comércio clandestino de ópio e heroína.

Entre os gregos antigos, o ópio era revestido de um significado divino como símbolo mitológico poderoso. Os seus efeitos eram considerados como uma dádiva dos deuses, destinada a acalmar os enfermos.

Na China, desde tempos imemoriais, a planta da papoula era símbolo nacional (tal como os ramos do café no Brasil). Parece que o ópio foi introduzido na China pelos árabes no século IX ou X.

As provas mais antigas do conhecimento do ópio remontam às plaquinhas de escrever dos sumerianos, que viveram na baixa Mesopotâmia (hoje o Iraque) há cerca de 7.000 anos.

O conhecimento de suas propriedades medicinais chega depois à Pérsia e ao Egito, por intermédio dos babilônios. Os gregos e os árabes também empregavam o ópio para fins médicos.

O primeiro caso conhecido de cultivo da papoula na Índia data do século XI. No tempo do império Mongol (século XVI), a produção e o consumo de ópio nesse país já eram fatos normais.

O ópio era conhecido também na Europa na Idade Média, e o famoso Paracelso o ministrava a seus pacientes.

Quando utilizado por prazer, era ingerido como chá. O hábito de fumar ópio conta umas poucas centenas de anos. Em muitas sociedades orientais tradicionais, recorre-se ao ópio contra dores nas enfermidades do corpo mas, também, como tranqüilizante. É também instrumento de relaxamento e de sociabilidade.

No século XIX, a "British East India Company" produzia ópio na Índia e o vendia para a China. A insistência do governo chinês em reprimir a venda e o uso da droga que se alastrava, levou a um conflito com a Inglaterra, conhecido como a "Guerra do Ópio". Os ingleses obrigaram a China a liberar a importação da droga e como resultado, em 1900, metade da população adulta masculina chinesa era descrita como dependente da droga.

Amplamente aceita como droga recreativa no Oriente, e comprado livremente na Inglaterra e Estados Unidos, até fins do século XIX, o ópio provocou o surgimento de "casas de ópio" na maioria das cidades européias. Foi somente no início do século XX que o seu consumo começou a ser proibido.

FONTE: http://www.imesc.sp.gov.br

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