12 de mar de 2012

Religião e especismo

Segue uma costura de e-mails de um pequeno debate via uma lista de amigos:

Falando em homenagem a Iemanjá, fiz um comentário no ano passado sobre a infeliz visão da praia (em Rainha do Mar) que tive na manhã do dia 1º janeiro de 2011, após homenagens de fins de ano que usam as águas do oceano. Na areia, “vomitado pelo mar”, se encontravam sabonetes, frascos de perfume e vários outros “aparatos” altamente poluentes – algo que eu acho inadmissível em tempos onde a consciência ambiental é indispensável para a sobrevivência do próprio planeta. Até “apelei” para que os líderes religiosos/espiritualistas estimulassem rituais que dispensem objetos não biodegradáveis. Acho que homenagens religiosas que poluem, na verdade, hoje são “ofensas” aos seres/forças ligados a elementos da natureza como o mar, as águas etc.

Aliás, se eu fosse um babalorixá, como o foi o fotógrafo e etnógrafo francês Pirre Verger, eu aboliria também TODOS os sacrifícios de animais. Sei que é a maior polêmica. Mas em nome do respeito às tradições, não se pode, por exemplo (e nada ver com babalorixá), ficar aceitando coisas como a extirpação de clitóris de garotas pubescentes, como acontece em alguns lugares do mundo, entre outras barbaridades. Animais, para mim, são seres sencientes, ou seja, muito semelhantes (para não dizer iguais) aos humanos, quer dizer, com sensibilidade a dor, portanto, sofrem, têm medo, saudade – como podem comprovar aqueles que lidam amorosamente com animais doméstico e até “os de corte” – além do que já nos diz a neurociência animal.

Por mais restrições que eu tenha a várias vertentes do cristianismo, ao menos os rituais de sacrifício – tão presentes no Velho Testamento – foram substituídos, em muitos casos, pelos simbolismos do vinho (bebe-se o sangue) e da hóstia (canibaliza-se o corpo de Cristo). Assim, não se sangra animal, nem ingere-se carne humana – como o faziam os astecas em seus rituais. (Já pensaram se os descendentes indígenas na América Central reivindicassem o direito de seguir a tradição de seus antepassados??)


Está na hora de uma reconfiguração, creio eu. Até mesmo a religiosidade pode incorporar as novas compreensões humanas. Sugiro que ao invés de matar um cabrito ou bezerro, a pessoa corte o seu próprio braço e ofereça às deidades... O sangue vai ser muito semelhante, assim como a dor...


Reforço: não falo “só” das religiões de matriz africana. No Brasil é, provavelmente, a vertente religiosa que mais faz uso de sacrifício de animais, mas isso existe dentro do judaísmo e do islamismo (para falar dos monoteísmos), entre outros milhares de outros cultos existentes no mundo.

Comer animais é algo que se pode admitir, considerando que somos omnívoros, biologicamente adaptados para obter e digerir carne. Em alguns lugares, os vegetais são praticamente inexistentes, como em pontos do ártico ondem vivem esquimós; eles dependem completamente da carne – e vísceras, ossos, peles, gordura etc. – para sobreviverem.

Nos sacrifícios rituais, na minha visão, o bicho é morto sem que haja, digamos assim, uma “necessidade concreta”; o sangue “desperta” uma força que poderia ser “despertada” por outro elemento simbólico ou ato ritualístico sem a morte real do animal.


Como fiquei sabendo, é ótimo que já há uma preocupação entre lideranças religiosas afros. Nos movimentos que questionam a morte e exploração de animais pelos humanos (os veganos à frente) se usa o termo ESPECISMO, similar a RACISMO; assim como certos grupos humanos se achavam no direito de escravizar outros grupos, considerando-os “inferiores”, nós continuamos submeter os animais aos nossos caprichos, ou seja, explorando-os ao ponto de matá-los – até por “razões espirituais”! A arrogância humana não tem limites; nos achamos os dono de tudo no universo, criando teorias que nos põem no ápice da criação e nos autoriza a sacrificar outros seres em nome de concepções abstratas.


Eu sou pouco conhecedor (para não dizer ignorante) da religiosidade e cultos afros, mesmo que conviva com devotos desde piá, tenha frequentado terreiros e lido algumas coisas esparsas sobre o assunto (citei o Pierre Verger, por exemplo).


Pois é. Falei que a questão (sacrifício de animais) é polêmica. Sim, dá para usar a “defesa dos animais” como um instrumento/escudo para exercer o racismo contra os cultos de matriz afro. Creio que não é o meu caso e não deve ser o de muita gente sinceramente preocupada em fazer valer uma perspectiva menos antropocêntrica e de respeito à vida de todos os seres sencientes, superando o especismo, o “racismo” contra os animais – tidos como “inferiores” e passíveis de morte, como já aludi.

Ter cuidados com o bem-estar e a diminuição do sofrimento dos animais a serem abatidos já é bom. Mas continua sendo uma arbitrariedade dos homens/mulheres sacrificar um outro ser para satisfazer algum preceito religioso ou gula (aquilo que ultrapassa a necessidade nutricional – no meu conceito). Penso que se deve evitar o fundamentalismo religioso, o dogmatismo, tanto quanto se evitar o preconceito racista e outros. Com toda certeza, os rituais, a maneira de conduzir a religiosidade humana foi se alterando ao longo do tempo e sempre será assim – “uma metamorfose ambulante”.

Bem, o debate é infindável e precisamos de pessoas que tenham conhecimentos profundos sobre história das religiões, teologia, ética, biologia animal (humanos inclusos) etc. Não pode ser um debate somente entre religiosos, mas incluir outros campos do conhecimento humano e perspectivas de existência.


Desculpa se fiz alguém entender que os filiados a cultos de matriz afro são fundamentalista. Na minha argumentação, disse que se deve – de modo geral, referindo-se a todas as religiões e todas as pessoas (me incluindo, obvio) – evitar fundamentalismos, ou seja, as explicações dogmáticas, fechadas, sem chances para críticas.

O sacrifício de animais é uma questão, no meu entendimento, que exige uma compreensão não só da religiosidade (de matriz afro e outras que se usam do sacrifício), mas compreender também a postura de quem é contrário a morte e exploração – seja para qualquer fim – de animais, caso dos veganos, que são vegetarianos restritos. Contrapor-se argumentos, mantendo-se a abertura de um lado e outro (ou outros). Só assim há avanços, penso eu.

Não estou tendo grandes cuidados com as palavras e nem me detalhando. Como eu disse, o assunto é complicado e praticamente sem fim. Particularmente, digo mais uma vez, aboliria o sacrifício de animais nos cultos religiosos, mas entendo a enorme dificuldade de se chegar a esse termo por conta de tradições culturais que merecem o maior respeito. Mas esse mesmo respeito se deve a quem concebe os animais como seres senscientes, que não deveriam ser mortos por motivo religioso ou, mesmo, alimentar.

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