16 de jul de 2012

Santa Cruz e Kiev


Volta e meia, cá estou com esta questão meio rabugenta: aqui em nossa região, de forte germanidade, muitas pessoas têm uma posição vitimista em relação as ações que tentavam coibir o uso dos dialetos teuto-brasileiros nos anos de 1940*.

Pois é notável como se “esquece” o contexto da situação de coibição desencadeada em todo o Brasil e que atingiu a população teuto-descendente, mas também descendentes de japoneses e italianos. No caso de Santa Cruz do Sul à época, eram comunidade onde, inclusive, se deve considerar a existência de lideranças que propugnavam uma aguerrida germanidade, em alguns casos, pautada no ideário e cultos cívicos nazis. Isso estava acontecendo no período de mais uma guerra mundial, onde a Alemanha se postava como a nação que deveria dominar o mundo, já que possuíam o povo mais perfeito do planeta (arianismo), e diversas atrocidades estavam sendo cometidas em nome da pureza racial. Além, por exemplo, de torpedeamento de navios brasileiros (que implicaram na morte de mais de mais de mil brasileiros), aconteceram atrocidades quase inenarráveis, demonstrando extremo e mortal ódio étnico – era o antissemitismo radical em ação, além dos expurgos e eliminação de outras populações e indivíduos.

Um caso:

Em 1941, em Kiev (ilustração acima, como seria em 1870/80), Ucrânia, os alemães assassinaram praticamente toda a população judaica da cidade. Em 36 horas, na ravina de Babi Yar, quase 34 mil pessoas foram mortas, enterrados numa grande vala comum, alguns ainda vivos. Tudo porque, na paranóia nazi, o culpado até por pequenos insucessos do exército alemão na guerra – como aconteceu na ocasião, com um bombardeio que matou alguns soldados alemães no centro de Kiev –, “só podia ser” o povo judeu... Tais barbarismos racistas eram função e especialidade principalmente dos Einatzgruppen, “unidade móveis de extermínio da SS, que segundo estimativas, teriam assassinado mais de 1,5 milhão de judeus, ciganos, comunistas e ativistas políticos à medida que o exército alemão avançava pelo Leste Europeu e pela União Soviética”, conforme está dito na página 729 do livro “1001 Dias que Abalaram o Mundo” (2009, editora Sextante).

Diante disso, diante do metódico e frio assassinato racista de milhões de pessoas, incluindo crianças, velhos, mulheres grávidas por parte da Alemanha nos anos da guerra, com podemos classificar a “revolta”, a indignação quanto a proibição do uso dos dialetos “alemães” em Santa Cruz do Sul? Por favor... me parece até uma mesquinharia, uma chorumela infantil, porque não contextualiza, não considera os reflexos internacionais – numa cidade (Santa Cruz) onde havia até um vice-consulado da Alemanha – do que estava acontecendo na nova escalada bélico-imperialista da “nação alemã”, sendo que, a cada dia, mais notícias horríveis, de fato revoltantes corriam o mundo! Nesse contexto, onde a nacionalidade/identidade alemã “naturalmente” se apresenta e se configura no imaginário tão negativamente a partir de atos concretos da Alemanha nazista e na guerra imperialista desencadeada em 1939, as restrições que começaram a existir (depois do governo Vargas ter flertado por longo tempo com os nazis) e até os atos excessivos, raivosos contra “alemães”**, todas esses acontecimentos podem ser – não justificados – mas compreendidos sem lamúrias e imputações exageradas – caso da decadência do uso dos dialetos***.


*Também como sempre me refiro, os dialetos falados “na colônia” são algo bastante diferente da língua alemã, como comum e equivocadamente muitos se referem, já que, ao tempo das primeiras levas da imigração para o Vale do Rio Pardo, sequer havia a Alemanha, surgida como país após uma forçada unificação em 1871; vindos de diferentes regiões, os imigrantes falavam diferentes dialetos, que foram se “misturando” entre si e com o Português, resultando e novos dialetos, que podemos classificar como teuto-brasileiros.

**Concebo a designação “alemão” ou “alemã” como uma identidade construída (colocando num liquidificador descendentes de diversos países europeus, da Boêmia, da Saxônia, da Polônia, Áustria, Bélgica, Rússia, Hungria etc., resultando no suco comum chamado “alemão”) e desenvolvida zelosamente cultivada por muitos, ao ponto de se colocarem em contraste aos “brasileiros”, ou seja, aos “demais”, os “sem origem alemã” – em especial lusos, negros, índios e mestiços.

***O desuso dos dialetos podem ser entendidos pela natural incorporação das comunidades teuto-brasileiras, pela migração cada vez maior de parentela para as cidades, pela expansão das comunicações – transporte, jornais, rádio etc –, da escola pública no meio rural; da integração econômica levando a uma integração social e cultural cada vez maior e mais efetiva, desencadeando eventos como os casamentos “interétnicos” e “inter-religiosos”, aos hábitos cada vez mais “urbanizados” e cosmopolitas.