4 de out de 2012

Câncer e expiação: a Idade Média ainda em nossas cabeças



Li a “A doença como metáfora” faz muito tempo, ainda no meu tempo de graduação. A autora do ensaio é uma mulher sensacional, a escritora e intelectual americana Susan Sontag (fotinho em anexo), falecida em 2004, após uma vida intensa, cheia de amores e lutas. Tinha 71 anos e centenas de publicações – ensaios, crônicas, romances etc.

Antes de ler Sontag, minha concepção sobre o câncer e de várias doenças se apoiavam, como é muito comum, em “origens” emocionais e espirituais. Assim, o câncer era produto de algum coisa errada ou ruim que estivemos fazendo nesta ou numa outra suposta vida anterior. Da mesma forma, a Aids (e Sontag tem vários textos sobre a síndrome) foi considerada uma praga – uma punição a gente sem escrúpulos sexuais ou pervertidas. Incrivelmente, mesmo depois de inúmeras pessoas terem contraído a síndrome por conta unicamente de transfusões de sangue contaminado, vindo de bancos de sangue sem testagem – caso do sociólogo Betinho –, mesmo assim há quem continue acreditando que se trata de um castigo de Deus aos devassos e homossexuais...

O câncer é algo sério e nada acrescenta de positivo a pessoa com a doença impingi-la com culpas que martelem dolorosamente sua mente com autoreprovações, retirando-lhes energia ao invés de poupar forças para os desgastes físicos do tratamento. Não basta a enfermidade em si? A doença em sua crueza? Por que não apenas buscar os diagnósticos e tratamentos médicos mais eficientes para cada caso, não desgastando o doente com conceitos e palavras de pseudo-conforto ou pseudo-ajudas de fundo moral, baseadas em crenças pessoais, como o “carma”? Por que não guardar isso para si e poupar, o amigo, o parente, o conhecido (ou desconhecido) de se sentir culpado por alguma “falha” e prescrever “métodos espirituais” que exigem autoflagelação, arrependimento e outras “expiações de pecados”?

Na Idade Média existia a tortura e a fogueira para os hereges e pecadores que não reconhecessem suas “graves faltas”. Hoje existe o câncer...


*A Companhia das Letras editou em 2007 uma versão poket juntando dois ensaios da Sontag, sendo o primeiro o A doença como metáfora. Abaixo, um link com uma suma da obra e acesso virtual a parte do livro:

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