7 de dez de 2012

A lancha

Esta semana, voltando para casa, passamos na estrada em frente ao posto de gasolina perto do trevo de acesso ao nosso bairro. Lá estava estacionado um big caminhão, levando em sua carreta uma portentosa lancha – quase um iate. Sem brincadeira, era muito próximo ao tamanho e volume da nossa baiuca... mas devendo custar no mínimo 10 vezes mais! E seria usado por algum bacana em alguns momentos do seu “lazer”, num lago ou rio por aí.

A nossa conversa derivou para isto: Como alguém pode ser dar ao luxo (literalmente!) de comprar e possuir tal objeto (custos com taxas e impostos anuais também não deve ser nada baixos)? Objeto, diga-se, tão caro quanto supérfluo. Como esta pessoa consegue gerar tal dinheiro para tamanha aquisição de deleite ocioso? É por trabalho? Pelo seu trabalho? Puro trabalho individual?

Óbvio que não pode ser. É uma incompatibilidade, uma incongruência, uma impossibilidade. Explico: por mais que alguém tenha excepcionais capacidade e empenho de trabalho, não há como transcender limites físicos, corporais (trabalho braçal), intelectuais (trabalho mental), ou seja, não há como o indivíduo trabalhar muito acima da média de esforços e habilidades dos demais trabalhadores do planeta Terra. Em algum momento, de algum jeito, para “possuir” bens caríssimos, se está ganhando muitíssima vezes mais do que a sua energia individual despendida em trabalho. Tal sujeito, necessariamente, está abocanhando (amealhando?) recursos que não são gerados pelo seu próprio trabalho; alguém, alguns ou milhões de outros humanos estão sustentando este acúmulo material, este excedente (excesso?) de riquezas médias geradas por trabalho real de um ser humano.

Não é por nada que os anarquistas dizem que toda a fortuna é um roubo, ou, ao menos, uma tremenda injustiça num mundo onde todos são biologicamente iguais, ou com bastante semelhanças em termos de inteligência e habilidades físicas. A “esperteza” é o que parece definir o “diferencial”. “Esperteza” que também pode ser definida como uma imoralidade, ou sacanagem, travestida de “ousadia”, “empreendedorismo”, “senso de oportunidade” e outras retóricas de sustentação do plutonismo ou riquismo.

O fato me parece matemático: o dinheiro que sobra ou jorra para alguns, falta ou escafede-se para muitos. A pobreza grassa num mundo de uma elite de milionários, bilionários, trilionários...

E como isso é justificado, explicado? Como dormir em sua cama king size, passear pela cidade em seu Rolls-Royce Phanton, comer em um restaurante com pratos a partir de 180 reais enquanto crianças de 10 anos são prostituídas logo adiante na esquina? Uma das formas de explicação, com certeza, é pela “intervenção divina”, ou seja, pela atuação de Deus. Ele é dadivoso aos seus preferidos;  seria um pecado rejeitar as Suas benesses – mesmo com idosos morrendo sem atendimento em hospitais e tendo as cadeias cada vez mais abarrotadas, animalizando aqueles que deverias estar sendo “reeducados” (ou algo assim). Outrossim, concebe-se (sarcasticamente, só pode ser) que problemas sociais nada têm a ver com o acúmulo estratosférico de riquezas.

Afora tais explicações religiosas e ideológicas, a riqueza ostensiva e ostentatória deveria revoltar, em especial os bilhões que vivem à míngua. Entretanto, o controle massivo das mentes é tamanho, que os temores de ser apedrejado passeando em sua mega lancha ainda são pequenos...

(Talvez também se tenha que considerar atavismos humanos, num formato hipertrofiado, de quando andávamos em bandos e havia machos-alfas e a ostentação se impunha como um mecanismo de expansão genética do indivíduo...)

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