11 de mar de 2013

Somos Homo sapiens antes dos livros

Sobre A importância relativa dos nossos amados livros...


Ou para não esquecer que há coisas bem anteriores, muito mais fundamentais para a existência humana do que a leitura...


Recebi de uma colega uma artigo que falava das novas tecnologia e hábitos de leitura, especialmente com a chegada da informática e, hoje, de dispositivos como e-readers, palms e tablets. Muito bacana o texto (http://biblioo.info/o-livro-e-o-leitor/). Nos coloca uma linha histórica. E aí a gente percebe que poderemos nos sentir nostálgicos em relação as brochuras (“livros de papel”) diante dos e-readers, assim como os monges copistas ou filósofos antigos provavelmente suspiraram em relação aos seus amados manuscritos defrontando-se com a revolução do novo formato e popularização derivados inaugurada pelo sistema de impressão de Gutenberg no século XIII...

Viajando mais um pouco: E se a gente pensar na história do ser humano, ou do Homo sapiens, que vai aos milhões de anos se considerarmos a evolução da espécie desde o Australopitecus (poderíamos retroceder ainda mais), se pode dizer que a relação com materiais escritos ou, mesmo, os desenhos nas paredes de cavernas, vamos até uns 30 mil anos. Levando em conta a escrita em placas de cerâmica, madeira, couro, papiros e papel, aí é algo ainda mais curto: talvez sete mil anos atrás. Há 10 mil anos a agricultura e a domesticação de animais iniciou pra valer, segundo os estudos arqueológicos e paleontológicos. Até ali, fomos, por 200 mil anos, povos caçadores-coletores, usando-se de nossa estrutura cérebro-corporal para sobreviver e desenvolver culturas -- línguas, normas, tecnologias para a sobrevivência/convívio. Ou seja, numa escala maior de tempo, a nossa relação com a leitura – um subproduto, provavelmente, originado do potencial humano para a localização e decifração de padrões, fundamental para nossa sobrevivência física enquanto um ramo dos primatas –, é um piscar de olhos...

Pois é. Parece muito tempo, mas livros são um objeto muuuuito novo na trajetória humana. Por longo, longo, longuíssimo período nos viramos com a oralidade, com a transmissão boca-a-boca (literalmente) e por outros artefatos para nos comunicar, registar e expressar nossas vidas. Na escala de tempo, biológica e socialmente falando, enquanto humanos, fomos 99% do tempo ágrafos... E de onde estamos, em meio a estantes enormes de pesados livros e a infinidade espantosa de textos acessíveis via internet, não é fácil nem tranquilo perceber objetivamente a importância relativamente pequena da escrita, da leitura, e, consequentemente, dos nossos amados/sagrados livros... (A linguagem não verbal, dos inúmeros gestos e manifestações corporais, alguns inatos, outros desenvolvidos nas culturas, por exemplo, foi e continua sendo imensamente importantes e antecedendo muitíssimo na comunicação humana o uso de palavras, que dirá dos escritos.)

Entretanto, com certeza a escrita é algo revolucionário, como bem disse Carl Sagan ("O mundo assombrado por demônios") e uma habilidade indispensável para sobreviver no mundo contemporâneo. Mas sem esquecer que, até o surgimento da escrita, inúmeras revoluções evolutivas fundamentais do ser humano ocorreram, sem as quais, estaríamos ainda mais próximos dos nossos primos chipanzés e bonobos – seres cuja inteligência, capacidade de expressão e organização social não são nada desprezíveis; na verdade, se assemelham muitos conosco, já que compartilhamos a mesma origem animal; mínimos detalhes em nossa composição genética nos alçaram, no processo evolutivo, a uma condição sui generis entre os símios.

Tudo isso, me desculpem a xaropada pedante, deriva especialmente de, vejam... LIVROS! que estou lendo aos poucos (e aproveitei as férias para dar uma acelerada), até porque têm desajustado várias de minhas "tradicionais" concepções. É o caso de "Eu, primata", de Frans Wall, e "O macaco nu", de Desmond Morris, ambos zoólogos e especialista renomadíssimos em etologia, que, simplificadamente, é “o estudo do comportamento animal”. Entram neste time outros caras, caso do "formigólogo" Edward Wilson (que pode ser considerado fundador da sociobiologia) e o psicólogo e linguista Steven Pinker, além de caras como o jornalista Cristopher Hitchens e outro biólogo, o geneticista - enfant terrible das religiões - Richard Dawkins.

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