5 de nov de 2013

A religião analisada por um zoólogo...


Segue-se uma citação um tanto longa – mas muito instigante (acho eu) – para se pensar a religião por um viés inusitado: um subproduto da estruturação biológica do Homo sapiens, “a única espécie animal de primata bípede do gênero Homo ainda viva”, na definição na Wikipédia.

Para apreciá-la, talvez se necessite “descer do pedestal da criação” e nos ver e post...ar enquanto mais um – embora singular em diversos aspectos – componente do planeta; um dos seus seres vivos, surgido num longuíssimo processo evolutivo, que nos trouxe até os dias de hoje em companhia com quase incontáveis de outras espécies de animais – afora todo o vastíssimo reino vegetal e de outros seres vivos, tais como fungos e bactérias.

Os parágrafos foram retirados do já mencionado livro “O Macaco Nu”, de Desmond Morris (edição da Círculo do Livro – tradução para o português de Hermano Neves, do original “The Naked Ape”, publicado em 1967).

Morris é zoólogo, nascido em 1928 na Inglaterra, com doutorado pela Universidade de Oxford e várias condecorações acadêmicas; autor de muitos livros sobre comportamento animal, onde se inclui, em especial, o ser humano, num escrutínio mais afeito à etologia (comportamento animal) e menos etnológico (culturas humanas). Morris é colocado como uma referência na sociobiologia, campo de estudos que venho desenvolvendo muitas simpatias, embora careça de mais conhecimentos (mal li obras de Edward Wilson, por exemplo).

Uma das coisas mais importante que acredito Morris tenha feito através de seus livros, estudos, documentários, palestras, enfim, sua existência intelectual criativa, foi sempre voltar a nos lembrar que

"Apesar das nossas ideias grandiosas e das nossas sublimes vaidades pessoais, continuamos a ser humildes animais, sujeitos a todas as leis básicas do comportamento animal."

Como está na apresentação da edição de onde retirei as citações,

o humano, como espécie, "não é dono e senhor da natureza, mas simplesmente um dos seus filhos".

"Tendemos a sofrer de uma estranha condescendência (...), convencidos de que somos entes especiais, acima de qualquer regulação biológica. Mas não é assim. Houve muitas espécies formidáveis que se extinguiram no passado, e não somos exceção. (...) temos de nos encarar demorada e friamente como exemplares biológicos e compreender alguma coisa sobre as nossas limitação [enquanto um ramo dos primatas sem cauda, os 'macacos pelados']."

Mas agora, sim, vai a citação sobre a religião. Está lá no capítulo V, “Agressão”, entre as páginas 155 e 159:

(...)

Já que falamos em religião, talvez valha a pena observar mais de perto essa estranha forma de comportamento animal, O assunto não é fácil, mas, como zoólogo, devemos fazer o possível para observar o que se passa na verdade, em vez de nos determos ouvindo o que deveria ter acontecido. Se o fizermos, teremos de forçosamente de concluir que, em sentido comportamental, as atividades religiosas consistem na reunião de grandes grupos de pessoas que executam longas e repetidas exibições de submissão, no intuito de apaziguar o indivíduo dominante. Esse indivíduo dominador assume muitas formas nos diferentes tipos de cultura, mas conserva sempre um fator comum: um poder enorme. Às vezes, assume a forma de um animal de outra espécie, ou uma versão maios ou menos idealizada. Outras vezes, é retratado como um membro sensato e idoso da nossa própria espécie. Pode ainda tomar um caráter mais abstrato e receber o nome de “o Estado”, ou outros equivalentes. As respostas submissas que lhe são oferecidas podem consistir em fechar os olhos, baixar a cabeça, por as mãos em atitude de súplica, ajoelhar, beijar o solo, ou mesmo chegar à prostração extrema, frequentemente acompanhada de vocalizações de lamento ou de cânticos. Se esses atos de submissão são bem sucedidos, o indivíduo dominante acalma-se. Como mantém enormes poderes, as cerimônias de apaziguamento têm de ser praticadas a intervalos regulares e frequentes, para impedir que o dominador volte a sentir-se irado. Em regra, mas nem sempre, o indivíduo dominando é chamada um “deus”.

Como nenhum desses deuses existe de numa forma corpórea, é o caso de se perguntar por que forma inventados. Para encontrar a resposta, temos de regressar às nossas origens ancestrais. Antes de nos termos tornados caçadores cooperantes, devemos ter vivido em grupos sociais semelhantes aos que ainda hoje se veem em outras espécies de macacos e símios. Nos casos típicos, cada grupo é dominado por um só macho. Este é ao mesmo tempo patrão e senhor todo-poderoso e cada membro do grupo tem de apaziguá-lo ou sofrer as consequências. O chefe é também o membro mais ativo na proteção do grupo contra os perigos exteriores e no ajuste de contendas entre os restantes membros. Durante do a vida, cada membro do grupo gira à volta do animal dominante. O seu papel de detentor do poder dá-lhe uma posição semelhante a de um deus. Voltando agora para os nossos antepassados mais próximos, torna-se evidente que, com o desenvolvimento do espírito cooperativo, tão fundamental para a caça em grupo, a aplicação da autoridade do indivíduo dominante teve de ser muito limitada, para conservar a lealdade ativa (e não passiva) dos restantes membros. Era preciso que estes últimos quisessem ajudar o chefe, em vez de se limitarem a teme-lo. Para isso, o chefe tinha de ser cada vez mais como “um dos outros”. O antigo macaco tirano teve de desaparecer, para ser substituído por um chefe macaco pelado, mais tolerante e cooperante. Tratava-se dum passo essencial para a organização de um novo tipo de “entreajuda”, mas criou um problema. O domínio total do membro número 1 do grupo foi substituído por um domínio qualificado, de forma que aquele não podia impor uma lealdade cega. Embora essa mudança tenha sido vital para o nosso sistema social, deixou, no entanto, uma lacuna. Devido aos nossos antecedentes, conservamos a necessidade de uma figura todo-poderosa que mantivesse o grupo sob um certo ‘controle’, e a vaga foi preenchida com a invenção de um deus. Dessa forma, a influência da figura-deus inventada podia funcionar como uma força complementar da influência progressivamente decrescente do chefe do grupo.

À primeira vista, surpreende como a religião tem tido tanto sucesso, mas o seu enorme apenas nos dá apenas a medida da força da nossa tendência biológica fundamental, herdada diretamente dos macacos e símios nossos antepassados, para nos submetermos a um membro do grupo dominador e todo-poderoso. Por esse motivo, a religião tem-se revelado extremamente valiosa como mecanismo de coesão social, e é mesmo possível que a nossa espécie não tivesse progredido tanto sem ela, dado o conjunto especial das circunstâncias que acompanharam a nossa evolução. A religião conduziu a diversos subprodutos bizarros, tal como a crença numa “outra vida”, em que encontraríamos, finalmente, as figuras-deuses. Pelas razões já mencionadas, os deuses eram inevitavelmente impedidos de nos aparecerem na vida atual, mas essa falta podia ser corrigida depois da vida. Para facilitar as coisas, desenvolveram-se as práticas mais estranhas em relação ao destino dos nossos corpos quando morremos. Se vamos finalmente encontrar os nossos senhores dominantes e todo-poderosos, devemos ir bem preparados para o acontecimento, o que justifica todos os requintes das cerimônias fúnebres.

A religião também originou muito sofrimento e miséria desnecessários, sempre que se formalizou exageradamente a sua aplicação e sempre que os “assistentes” profissionais das figuras-deuses não resistiram à tentação de lhes pedir emprestado um bocadinho do poder divino, para usar em proveito próprio. Contudo, apesar de a história da religião ser muito confusa, trata-se de um aspecto da nossa vida social sem o qual não podemos passar. Sempre que se torna inaceitável, é rejeitada, de maneira calma ou violenta, mas surge imediatamente sob nova forma, talvez cuidadosamente mascarada, mas contendo todos os antigos elementos básicos. Muito simplesmente, precisamos “acreditar em alguma coisa”. Só nos mantemos unidos e controlados se temos uma crença comum. Nesse sentido, poderia afirmar-se que qualquer crença serve, desde que seja suficientemente poderosa; mas isso não é exatamente verdadeiro. A crença tem de ser impressionante e tem de ser visivelmente impressionante. A nossa natureza comum exige a execução e a participação em rituais de grupo requintados. Se se eliminam a “pompa e circunstância”, deixa-se uma terrível lacuna cultural e a doutrinação não atingirá o profundo nível emocional que lhe é indispensável. Acontece ainda que certos tipos de crença são mais prejudiciais e estupidificantes do que outros, podendo mesmo desviar uma comunidade para tipos de comportamentos rígidos que impeçam o respectivo desenvolvimento qualitativo. Como espécies, somos um animal predominantemente inteligente e explorador, e todas as crenças baseadas nesse fato são extremamente benéficas. A crença na validade da aquisição de conhecimentos e da compreensão científica [não confundir com verdadeira, única, permanente] do mundo em que vivemos, da criação e apreciação dos fenômenos estéticos em todas as suas formas e do alargamento e aprofundamento do campo das nossas experiências da vida cotidiana vai se tornando rapidamente a “religião” do nosso tempo. A experimentação e a compreensão são as nossas figuras-deuses bastante abstratas, cuja ira será desencadeada pela ignorância e pela estupidez. As nossas escolas e universidades são centros de treino religioso e as nossa bibliotecas, museus, galerias de arte, teatros, salas de concerto e estádios esportivos são locais de culto comum. Em casa praticamos o culto com nossos livros, jornais, revistas, rádios e televisões. De certa maneira, continuamos a acreditar no pós-vida, visto que uma parte da recompensa obtida com nossos trabalhos criadores é exatamente o sentido de que continuaremos, através deles, a “viver” depois de mortos. Como todas as religiões, essa também tem os seus perigos, mas se, como parece, necessitamos de ter uma religião, a nossa parece a mais adequada às qualidades biológicas particulares à nossa espécie. A adoção dessa religião por uma maioria crescente da população do mundo pode ser uma compensadora e tranquilizadora fonte de otimismo que se opõe ao pessimismo expresso anteriormente, a propósito do nosso futuro imediato e da sobrevivência da espécie.

*Sim, muito a ver com Dawkins, que além de darwinista e militante pela análise da religião de forma objetiva e não supervalorativa, tem livros excelentes de divulgação científica. Um cara importante nesse “mundo assombrado pelos demônios”, como diria o saudoso Carl Sagan, com tantas crendices e fórmulas escapistas, acabando por limitar ainda mais a mente humana, supostamente na tentativa de “expandi-la para o além”.

**E num outro comentário que estou lendo, já faz um tempo, coisas do filósofo Daniel Dennett. E está aqui na pilha, entre os primeiros, o seu livro “Quebrando o Encanto – A Religião como Fenômeno Natural”.Conforme diz na resenha, Denett quer "discutir a crença humana nas religiões a partir de uma questão fundamental: por que o homem crê na existência de seres superiores e lhes confere o estatuto de divindade?" E embora ele use conceitos "transbiológicos" como “memes” (Dawkins difundiu a ideia), afirma que "esse comportamento [da crença religiosa] pode ser explicado a partir do processo de evolução e seleção natural". O "quebrar o encanto" tem a ver com algo que pode ser lastimado: a perda do estado de beatitude, de êxtase e confiança que se sente a partir da adesão à fé, e, por outro lado, a “quebra” do domínio que se pode exercer ao oferecer (via igrejas de todos os naipes) tal "droga mental" às pessoas. Enfim, resumindo, não é fácil largar da cachaça! Hehe!!

***As análise de caras como o Dennett valem para todas as “linhas” religiosas. Me considero agnóstico. Mas além do gosto antropológico por todas as manifestações humanas, me inclino, hoje, para o panteísmo eisteneano, a “religiosidade cósmica” que ele falava (e que muitos fazem interpretações completamente descabidas), nada a ver com figurações antropomórficas “tipo Deus” ou deuses ou forças ou espíritos etc. Cada uma na sua, mas sem poupar crítica em nome do respeito a religião, ao “sagrado”; deveria ser objeto de análises como qualquer outro tema: política, cinema, dietética etc.

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